quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Minhas impressões sobre a educação na Irlanda

O Lipe tem quase treze anos e ele já estudou em nove escolas ao longo da vida. O Pablo com nove anos de idade estudou em sete escolas.  Eles foram pra escola aos cinco e seis meses de idade respectivamente e nos mudamos bastante, mas também nós trocamos eles de escola algumas vezes buscando alguma opção melhor. Até que trocamos de país buscando uma educação melhor. 

Foi maravilhoso, foi incrível, foi mágico, mas não foi perfeito. Eles estudavam em escolas nota dez na classificação nacional, mas eram escolas sem diversidade alguma, com muita competitividade e muitos elogios vazios. O ensino na California não era tradicional, eles colocavam bastante a mão na massa, eram ensinados a questionar (em determinados assuntos, claro) e prometiam lealdade a bandeira americana todas as manhãs. Oi??? É, isso mesmo, mãozinha no peito todas as manhãs pra prometer lealdade a bandeira americana. Eu tentava abstrair e pensar só nas coisas bacanas.

Como já falei antes, nosso medo de mudar pra Irlanda era que de alguma forma impusessem o catolicismo na escola. Depois de dar um jeito de encontrar um irlandês pra me contar como eram as escolas e me falarem um pouco eu pensei, que mal há em rezar um "Pai Nosso" se hoje eles estão prometendo lealdade a um país que nem é deles?

Diferente de quando fomos pra California, dessa vez tinha uma empresa ajudando com todos os detalhes da nossa mudança. E uma coisa maravilhosa que eles fizeram foi encontrar uma escola que aceitasse os dois juntos e no último termo (as aulas são divididas em termos de uns três meses aproximadamente). Aqui na Irlanda é muito comum escolas só de meninos e só de meninas. Nós fizemos questão de que fosse uma escola mista.

As escolas mistas não são tão fortes academicamente. Mas depois de tantas escolas pela vida, entendemos que pra nós é importante que eles saibam lidar com as diferenças em todos os aspectos e aprendam coisas pra vida, como trabalhar em equipe, socializar, chegar no horário, organização, gostar de ler, viver em sociedade.

Pra nossa alegria, a escola tem gente de inúmeros países, inclusive, somos em quatro famílias brasileiras. Eles tem até um mapa simbolizando todos os países representados. E tem outros países sem o alfinete, porque de vez em quando alguém fica triste que seu país não tá representado e troca o negócio de lugar. Na turminha do Pablo são 23 alunos e somente 3 são irlandeses. Tem gente da Italia, Espanha, Polonia, Eslovaquia, Moldova, India, Filipinas e vários outros lugares que eu não gravei.

A escola é super pequenininha e eles tem uma funcionária que o trabalho dela é estreitar as relações entre a escola e os pais. Qualquer hora que eu quiser tomar um café na escola, ela vai estar lá, pra conversar, checar se tem leite e correr pra resolver alguma outra coisa. Ela também ajuda a associação de pais nos eventos pra arrecadar dinheiro e promove cursos gratuitos na cozinha da escola, eu já fiz curso de culinária e de educação de filhos, mas tem também de artesanato, decoração de bolos, já teve até ioga. Eu acho o máximo! Não tem voluntariado na sala de aula como tinha na Califórnia, mas tem esses eventos pra trazer os pais pra escola. 

Eu também acho fofo que em qualquer evento que envolva os pais, sempre tem café e biscoito depois, e nada de produto descartável. É xícara e pires, que a gente (os voluntários) lava depois e guarda. Eu acho tão gostoso, tão jeitinho de casa de vó, tão aconchegante.

Pra voluntariar em qualquer evento que envolva as crianças, tipo, na próxima semana terá o dia do cachorro quente, é necessário ser "garda vetted", que significa que tu mandou todos os teus dados pra polícia da Irlanda e eles disseram que ok, pode trabalhar com crianças que você é uma pessoa do bem.

O ensino é bem tradicional, professora explica, alunos sentadinhos escutando e depois fazem alguma atividade. Eles usam uniforme social (o Pablo usa até gravata) e nas regras da escola dizem que tem que estar de cabelo sempre bem cortado e penteado (meus filhos burlam essa regra diariamente, porque vivem descabelados).

E a religião, Carol? Como que funciona? Acho que essa foi a melhor surpresa. Aqui a primeira comunhão é dentro da escola. Faz parte do currículo. Quando chegamos, estavam a todo vapor se organizando pra primeira comunhão da turminha do Pablo. Aqui a primeira comunhão é um super evento. Depois da primeira comunhão na igreja, todos participaram de uma celebração na escola, advinhem! Com chá e biscoitos. E o mais maravilhoso de tudo é que as crianças não católicas participaram da celebração. Os cristãos não católicos rezaram o pai nosso nas suas línguas de origem, os hindus cantaram um mantra e o Pablo e a Karolina recitaram um poema sobre a amizade.

Todas as religiões são respeitadas e ninguém é obrigado a participar das atividades de religião. Durante as aulas de religião, os não católicos fazem desenhos, leituras, ou ficam só quietinhos, esperando a hora passar. Ninguém enfia nada goela abaixo. E a professora sempre tenta mostrar o que todas as religiões tem em comum, que somos um, e que todos devemos nos respeitar. Eu fico até arrepiada com isso. Eu acho que não existe lição melhor do que essa pra passar pras crianças.

Eu não sei se todas as escolas são assim, mas essa é a minha experiência com a escola do Pablo e eu queria muito ter tido essas informações disponíveis quando eu estava tentando decidir se queria vir pra Dublin ou não. No futuro vou fazer um post falando sobre o que eu gosto e o que eu odeio da escola do Felipe, que já foi pro ensino secundário.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Medos bobos e coragens absurdas

Desde que resolvi voltar a escrever, a minha cabeça borbulha com ideias sobre o que escrever. Uma das coisas que eu não posso deixar de escrever é sobre a minha saúde emocional. Não que eu ache que alguém esteja interessado na minha saúde emocional especificamente, mas porque eu percebo que quando eu conto pras pessoas sobre as minhas experiências, o mundo parece que se divide em dois grupos, o grupo das pessoas que acham que crise de ansiedade é "falta de um quintal pra carpir" e o grupo de pessoas que dizem "obrigado(a) por compartilhar, agora eu sei que não estou só". 

Entre indas e vindas, e tendo passado por 4 psicólogas maravilhosas com linhas bem diferentes uma da outra, já faz doze anos que eu faço psicoterapia. Eu acho que todo mundo deveria fazer terapia e se conhecer melhor, mas entendo que muita gente prefira não tirar essa armadura invisível que simbolicamente deixa nosso coração protegido de todas as dores. Eu confesso, tirar essa armadura e cavocar as mágoas adormecidas, as experiências que nosso subconsciente nos faz esquecer justamente pra não sofrermos, as nossas raivas, os nossos medos, enfim, dói MUITO. 

É bem comum eu terminar a sessão com ódio mortal da psicóloga ou então simplesmente parar a terapia por achar que não tem mais nada pra tratar. Eu mesma já precisei de um tempo da terapia porque o negócio tava complicando e eu inconscientemente criava um mecanismo de defesa que me fazia sentir que estava tudo bem. Ainda bem que uma das minhas psicólogas observou o padrão e pude perceber que sempre que eu tava querendo fugir da terapia era porque eu precisava trabalhar algo mais do que nunca.

Em 2016 foi um desses momentos que eu fugi da terapia. O ioga tava me fazendo muito bem, eu fazia ioga massagem ayurveda, o que também era uma forma de terapia, mas não era falado, era sentido, era diferente. Final de 2016 pedi demissão e mudamos pra Califórnia. Eu só chorava, dia e noite, incluindo madrugadas. Com o tempo, passei a dormir. Levava os meninos na escola, voltava pra casa e dormia, se tivesse acordada, tava chorando. Buscava os meninos na escola, voltava pra cama e dormia (Essa foto é dessa época, tentando um sorriso pra poder postar a vida maravilhosa no Instagram, mesmo de óculos de sol, da pra ver beeeem que tá forçado).

A vida estava tão linda acontecendo no Brasil, não parava de chegar mensagem no meu whatsapp de pessoas procurando doula ou consultora em aleitamento (coisa que nunca aconteceu enquanto eu estava no Brasil), mas eu estava lá, sozinha, num país completamente diferente, tendo que segurar a barra da adaptação dos meninos, tendo que aprender tudo sobre tudo, num inverno frio e chuvoso enquanto todo mundo postava foto de biquini e tomando caipirinha na beira da praia (e sim, na California costuma ter problemas com seca, mas a seca acabou quando chegamos, pois choveu de forma atípica por mais de um mês).

Comecei a perceber que barulhos altos e repentinos me causavam aflição, um aperto no peito instantâneo. Notei que cada vez que eu ouvia o barulho de um avião, eu achava que iam soltar uma bomba na minha cabeça. E isso acontecia dezenas de vezes num dia, já que morávamos relativamente perto do aeroporto. Cada barulho de ambulância, um desespero, uma sensação horrível, um medo absurdo, coração disparado. Foi quando eu mandei mensagem pra minha psicóloga dizendo "eu preciso de ajuda, não estou bem".

Comecei então a fazer terapia com a minha psicóloga do Brasil por video no whatsapp. Fui organizando dentro de mim todos os sentimentos, o desmontar a casinha de lego, a perda de referência, e vários outras coisas que não dá pra compartilhar aqui. Os sustos foram diminuindo e achei que eu já podia viver sem terapia de novo.

Engano meu. Em pouco tempo, cada mínima dor que eu sentia eu achava que era câncer e que eu ia morrer semana que vem. Mesmo aperto no peito, coração disparado, desespero. Algumas vezes eu acho que não sei mais respirar, as vezes acho que não sei engolir saliva e dali desencadeiam as nóias.

É óbvio que eu sei que todos esses pensamentos são irreais. Eu não sei de onde eles vem e eu juro que tento controlá-los. Na maioria das vezes eu consigo, mas muitas vezes não. Nas crises mais fortes eu sinto o rosto adormecer e fico igual a um zumbi, com tempo de resposta super longo, não consigo raciocinar e muito menos tomar qualquer decisão simples. Depois que passa, vem uma dor no corpo, daquelas que a gente sente quando pega uma gripe.

Eu costumo acordar apavorada no meio da noite, assustadíssima, com pensamentos completamente sem sentido, tipo quando meu pai estava na UTI e eu acordava de madrugada em desespero porque tinha dado o remédio errado pra ele, sendo que eu nunca encostei em medicamento algum.

Cada ambulância que passa, meu coração dispara. Se for no horário que o Felipe está indo ou voltando da escola mesmo, eu não consigo respirar até ele me responder que está bem. Se ele leva cinco minutos a mais do que o normal pra chegar em casa, eu entro em parafusos. E ele é um adolescente, isso vai acontecer muito. Eu explico pra ele que eu fico muito nervosa quando ele não responde e que desencadeia as minhas crises, ele entende e colabora muito. Mas eu não quero ficar enchendo o saco dele. Eu tento evitar, mas as vezes prefiro ligar, e ser uma mãe chata, do que deixar uma nova crise chegar.

Esse post não é um pedido de ajuda. Não adianta me dizer pra ir pegar um ar puro, ou fazer meditação, ou que eu tenho que mudar meu mindset. Eu sei, racionalmente, tudinho o que eu tenho que fazer. E faço. A questão é que quando a crise vem, o racional desliga. Eu tenho o privilégio de ter pessoas com quem eu posso contar quando eu sinto que a coisa está complicando. E essas mesmas pessoas contam comigo também quando precisam pelas mesmas razões. É uma espécie de irmandade das pessoas ansiosas. Não adianta explicar pra quem nunca teve uma crise, ela muito provavelmente vai vir com receitas pra sua cura, o que é extremamente irritante.

Mas Carol, tu não tens vergonha de mostrar tuas fraquezas? É óbvio que tenho!!! Esse post é pra ajudar quem também passa por isso. Pra que saibam que não estão sós e que podem contar comigo pra ouvir os pensamentos mais absurdos na hora da crise, porque sim, saber que não estamos sozinhos faz toda a diferença. E só pra deixar bem claro, a ansiedade não me define, ela é só um pedacinho de mim.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Quase um ano vivendo sem carro

Uma das coisas que precisamos nos desfazer na Califórnia foi nosso carro. Usávamos o carro pra ir ao mercado que ficava a sete minutos de caminhada de casa. O Felipe ia de patinete pra escola, mas muitas vezes achava uma desculpa pra eu ir buscá-lo no final do dia. A escola do Pablo era um pouco menos acessível, tinha um morro íngreme pra subir e tinha que atravessar a high way one. Mas eu sempre saia atrasada, na confiança por ter a conveniência de fazer as coisas no meu tempo. E eu ainda deixava o Pablo no serviço que a escola oferecia, onde eu deixava ele na porta da escola e tinha alguém pra abrir a porta e cuidar dele dali pra frente. Dirigir sempre foi uma paixão e eu era oficialmente a motorista da família. Diego só dirigia nos passeios de fim de semana. E fazíamos TUDO de carro. 

Por burrice pura, compramos um carro zero e financiamos em cinco anos assim que chegamos na Califórnia. Na hora de nos desfazermos dele, o pesadelo. Devíamos mais do que ele valia, e ninguém queria sequer pagar o que ele valia. Em resumo, morremos com mais de dois mil dólares pra alguém comprar o nosso carro. Emojis de lágrimas de desespero. Hahaha.

Chegando em Dublin, alugamos um carro por um dia porque tínhamos um milhão de malas e precisávamos voltar ao aeroporto em algumas horas pra buscar a Fofinha. Foi desesperador. O Diego que estava dirigindo e eu era o copiloto. Mas socorro. As estradas são super estreitas (especialmente se compararmos aos estados unidos, que é tudo imenso), o volante do outro lado e a mão pra dirigir é do outro lado também. Fazia anos que ele (e eu também) não dirigia carro com câmbio manual, pior ainda, ter que passar a marcha com a mão esquerda. Sobrevivemos. No dia seguinte ele devolveu o carro e foi pro trabalho. Ufa, que alívio.

Já tínhamos meio que decidido na Califórnia mesmo que tentaríamos viver sem carro em Dublin. Chegando aqui, tivemos certeza. O trânsito não é inteligente como era na Califórnia. É meio caótico, na verdade. E o transporte público resolve nossa vida. Não é barato, mas gastamos menos do que gastaríamos se tivéssemos um carro. Tem um aplicativo de aluguel de carro que resolveria nossa vida caso precisássemos de carro de vez em quando, mas nossas carteiras de motorista da Califórnia venceram e hoje nenhum de nós dois pode dirigir. E também nenhum de nós dois teve paciência e energia pra enfrentar o processo pra fazer a carteira de motorista aqui.

Como vivem então? Ué.. com as próprias pernocas, de trem ou de busão. Faça frio ou mais frio ainda, sol, chuva ou neve (é bem raro nevar, mas nevou ontem e bem na hora de levar o Pablo pra escola). Simplesmente nos adaptamos. E nem foi tão difícil assim. Nas primeiras semanas os meninos já aprenderam qual o nosso ônibus, que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo e que se não chegar no ponto na hora certa, ferrou, vai ter que esperar o próximo ônibus. Aprendemos a não ter pressa e planejar um pouco melhor o dia a dia.

De vez em quando dá vontade de ter carro? Sim, quando tem alguma coisa pra fazer e o mapa mostra que de carro seria quinze minutos e de ônibus uma hora e ainda tem que pegar dois ônibus. Mas dependendo da situação, pegamos um táxi. 

Infelizmente até hoje não peguei um taxista que eu sentisse que tenha sido honesto comigo. O aplicativo mostra um valor, eles no final da corrida adicionam cinco euros, ou fazem caminhos totalmente diferentes do que o aplicativo mostra e a corrida final sai sempre bem mais cara do que a estimativa. Eu juro que tento dar um voto de confiança e acreditar que conhecem o caminho melhor que eu, mas na maioria das vezes a diferença no valor final é muito grande e alguns não tem nem vergonha de colocar cinco euros no final da corrida assim, na cara dura mesmo. E isso é bem frustrante. E não, aqui não tem alternativa como Uber.

O “problema” maior é levar o Pablo pra escola em dia de chuva, e são vinte minutos de caminhada. Mas também já aprendemos que nesses dias vale a pena sair um pouco mais cedo e pegar o ônibus, a mesma linha que o Lipe pega pra ir pra escola, só que uns minutinhos mais tarde. O horário do ônibus não bate muito com os horários da escola, mas a gente se vira. Ou vai cedo e fica esperando no shopping perto da escola, ou acaba chegando uns minutinhos atrasados, se perdermos o ônibus mais cedo. Odeio chegar atrasada, mas as vezes é o único jeito.

Como moramos perto da linha de trem (menos de dez minutos caminhando), o Diego chega rapidinho no trabalho no centro e optamos por pagar uma taxa mensal pela entrega das compras de mercado em casa, já que o mercado fica perto da escola. De vez em quando penso na possibilidade de comprar um daqueles carrinhos de feira pra ver se me adapto, mas por enquanto não senti tanta necessidade.

Tudo tem se ajeitado e estamos encarando o primeiro inverno sem carro numa boa. As vezes acontece de a chuva despencar bem na hora de ir pra escola e claro que bate aquela dúvida se vale mesmo a pena viver sem carro, mas já estamos há quase um ano caminhando e usando transporte público e tá sendo bem tranquilo. Pra falar a verdade, eu morro de vergonha das distâncias que eu tinha preguiça de fazer caminhando.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Voltando a escrever, contando sobre as experiências vividas...

Faz dois anos que escrevi pela última vez no blog. Nesses dois anos TANTA água passou por baixo da ponte. Tanta vida foi vivida, que eu nem sei por onde começar. Tenho tanta coisa pra contar, tanta coisa que eu aprendi, tanta coisa que senti. Se fosse resumir em uma palavra, eu diria que foi INTENSO.

Eu reli alguns dos posts e não sei se consigo escrever com a mesma leveza. Talvez seja a falta de vitamina D ou talvez tenham sido as experiências vividas. Um tempo depois de todo o deslumbramento com a vida na California, algumas coisas começaram a acontecer pra nos mostrar que talvez lá não fosse o nosso lugar. Eu não tinha permissão de trabalho, o visto de turista pra minha mãe e meus cunhados foi negado, assim, sem nenhuma explicação, eles julgaram que minha família era uma ameaça ao país e não permitiram que nos visitassem. Nosso tipo de visto estava sempre nas notícias, como sendo um vilão, que tirava emprego dos americanos e o governo estava fazendo o possível pra dificultar a renovação.

Junto disso, o Diego começou a sentir que as coisas estavam ficando estranhas na empresa e parecia que talvez pedir transferência pra Dublin fosse uma boa opção. Comecei a pesquisar sobre Dublin, mas não conversávamos muito claramente sobre. Eu sabia que em Dublin eu teria permissão de trabalho e que de maneira geral são mais abertos a imigrantes. Eu me preocupava um pouco com o clima, afinal, eu sabia que seria cinza, e eu sempre fiquei jururu nos dias cinzas, antes mesmo de abrir a cortina pra ver que estava cinza. Mas como eu estava morando na California e praticamente nunca chovia, quando chovia, eu ficava feliz, então achei que o clima não seria um problema.

Mas uma coisa me incomodava bastante. Eram as escolas católicas. Nós não temos religião e tudo que eu pesquisava sobre religião nas escolas era assustador. O que eu encontrava na internet eram pessoas furiosas porque seus filhos tinham que "engolir" o catolicismo nas escolas e que não tinham suas crenças respeitadas. E por isso, descartamos a ideia de mudar pra Dublin.

Um dia acordei meio banza e como sempre, tava olhando o instagram. Tinha um post dizendo "o que você faria se não tivesse medo?". Eu ainda estava em modo zumbi, o racional ainda desligado e dentro de mim, talvez até tenha falado alto e não percebi, mas respondi "Iria pra Dublin".

Demorei uns dias pra conversar com o Diego a respeito. Mas lembro muito bem de estarmos deitados conversando, e eu perguntava o que ele queria fazer e ele não queria falar antes de eu falar. E ficamos nessa, fala tu primeiro, não, fala tu.. até que falei, "eu quero ir pra Dublin". E ele disse, "Eu também, mas tava com medo de te falar, porque tenho medo de tu ficar mal como ficou quando fomos pra California."

Quando fui pra California eu fiquei MUITO mal. Eu acho que devo ter entrado em depressão, mas nunca fui diagnosticada, porque nunca fui ao médico falar a respeito, me resolvi com psicoterapia. Resolvi mais ou menos, porque as crises de ansiedade não me largam desde então.

Enfim, o Diego estava com medo de uma nova mudança provocar tudo aquilo de novo em mim. Expliquei que o contexto era completamente diferente e decidimos que ele iria pedir transferência. 

Entre a gente decidir, ele pedir, a empresa responder que sim, a empresa entrar com o processo, o visto ser aprovado e nós mudarmos pra Dublin foram 8 meses. Oito meses de muita pesquisa, oito meses que aproveitamos cada milímetro que foi possível da California. Muito pôr do sol, muitos passeios, muito voluntariado, muitos playdates, muitos castelos na areia...

E então chegou a hora de desmontar a casinha de lego de novo.. decidir o que iria pra Dublin e o que ficaria na California. Mas dessa vez foi TÃO diferente. Foi leve, foi fácil.. Tudo que eu conquistei na California, tudo que aprendi, era algo que não dava de colocar na mala. Estava comigo, e ninguém poderia tirar. Dia 25 de março de 2019 encerrou nosso ciclo California Dreams.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Mas e os meninos? Estão bem no inglês?

Mas e os meninos? Estão se virando bem no inglês? Arrisco dizer que essa é a pergunta que mais me fazem desde que nos mudamos pra cá. Acho que já deu pra perceber que eu gosto sempre de seguir uma certa ordem cronológica nos meus pensamentos, né? Então, vamos lá.


Com 13 anos eu comecei a estudar inglês no CCAA. "Good Morning, Magic Eyes, How are you? Fine, Thanks, and you?". No CCAA se aprende inglês como os bebês aprendem a falar. A gente escuta, repete sem entender mesmo, depois começa a usar aquelas palavras com algum contexto e assim vai evoluindo. Leitura e escrita vem por último. No CCAA eu costumava ser a melhor aluna, sempre muito elogiada pela pronuncia e por conseguir falar rápido e me fazer entender.

Depois de quatro anos de inglês, comecei a dar aulas. Uma das professoras teve bebê nessa época e vi ela falando inglês com ele e ali decidi que quando eu tivesse filhos, falaria inglês com eles desde a barriga. Preciso dizer que não foi bem assim que aconteceu?

Por imaturidade, parei de dar aulas de inglês. Me afastei quase completamente do inglês (digo quase porque eu nunca deixei de assistir filme legendado, por exemplo), mas sempre acreditei que ele estava ali, guardadinho, e que seria como andar de bicicleta: a gente nunca esquece. 10 anos depois de eu parar o inglês, o Diego começou a trabalhar com a empresa que ele trabalha hoje. E ele, que foi meu aluno um dia, começou a ir ficando cada vez melhor no inglês, enquanto eu permanecia na mesma.

Os meninos tinham o inglês da escola e só. Nunca consegui (e quando conseguiria, não tive coragem) pagar aulas de inglês pra eles. Uns meses antes de dar certo o visto, eu disse pro Lipe fazer duolingo, e ele fazia durante a tarde, um pouco, até encher o saco. O Pablo, nada! Por ele ser mais novo, sempre me disseram que ele aprenderia mais fácil.

Nos mudamos e levou um mês e meio pras aulas começarem. O que eles ouviam de inglês nesse tempo era em vídeos e os motoristas de uber que a gente cruzava, mas não tinham oportunidade de falar. As aulas começaram e na primeira semana o Lipe já tava se comunicando bem. Ele é mais peitudo, mete a cara e vai. Em poucos meses ele já tava me corrigindo e me ajudando com coisas que eu não entendo. A única coisa que me incomoda é ver o Lipe falando I "fink" quando tá querendo dizer "I Think". Fico louca, já expliquei mil vezes, mas não tem jeito, alguma alma ensinou pra ele assim no Brasil e não consigo fazer ele mudar.

O Pablo já teve um processo mais lento. No começo tava completamente perdido. Com o tempo, percebi que ele já entendia inglês, mas se eu perguntasse algo em inglês pra ele, ele respondia em português. O tempo foi passando e ele começou a arriscar a falar. Começaram as férias de verão e ele passou a ter pouca oportunidade de praticar o inglês. Em setembro as aulas começaram na escola nova e em um ou dois meses ele passou a falar mais inglês que português. 

Eu tenho bastante dificuldade pra me comunicar. Tenho impressão que as palavras estão trancadas em algum lugar do cérebro, elas simplesmente não saem. Na verdade, elas estão ali, na ponta da língua, mas não consigo transformar de pensamento pra fala. Então dou voltas, tento explicar com gestos, explico mais ou menos e as pessoas que me conhecem, acabam completando a frase ou falando a expressão correta e menos formal pra me ajudar. Na maioria das vezes eu sabia aquela palavra ou expressão, só não conseguia acessar. Não consigo entender.

Eu tenho ainda pouca oportunidade de conversar. Quando falo, demoro bastante e é difícil fazer uma conversa fluir como eu gostaria, apesar de as pessoas afirmarem que me entendem. Consigo conversar com uma pessoa por algumas horas, se estiver só eu e ela. Mas se tiver num grupo de pessoas falando não me sinto confiante pra entrar na conversa, fico mais observando, já que eu demoro bastante pra conseguir falar o que quero e nem todo mundo sabe do meu processo de aprendizagem.

Apesar de algumas pessoas aqui falarem que meu inglês é bom e que conseguem me entender, eu não me sinto segura falando inglês. Mas algo que acontece, que é interessante, é que eu não noto quando estou falando inglês ou português. Se estou falando inglês com alguém e de repente chega alguém falando português, eu começo a falar português sem perceber, esqueço que as outras pessoas não entendem português (apesar de muitas pessoas aqui falarem espanhol e ficarem curiosas por ser tão parecido). Parece que tem uma chave, que de um lado é inglês e outro português, e essa chave é automática, tu não percebe que ela mudou.

Normalmente os meninos saem da escola falando Inglês e continuam falando inglês sem perceber, até que alguém puxe algo em português, então eles mudam a chave pro português também sem notar. Mas o que hoje, um ano e dois meses depois da mudança, eu consigo perceber é que o inglês já está muito mais presente na cabeça deles do que o Português e mesmo quando eles falam português, eles acabam traduzindo do inglês pro português, como quando eles pedem "posso ter um bolinho de banana?" ou quando o Lipe fala "salvar a bateria" em vez de economizar. Em várias situações eles conseguem se expressar melhor em Inglês do que em Português.

Os meninos estão bem no inglês? Sim, estão melhores que eu, com um vocabulário super melhor que o meu e eles me ensinam coisas novas todos os dias. Tem bastante diferença entre o inglês que ensinam nos cursinhos e o inglês na prática. Também é legal falar, que por melhor que seja a nossa pronúncia, sempre vai dar pra saber de longe que não somos nativos, basta observar qualquer estrangeiro tentando falar português. O Pablo tem a pronúncia mais parecida com os americanos do que o Lipe, por causa da idade. Falamos inglês e português dentro de casa, sem nóias... e assim vivemos, as vezes pensando em português, as vezes sonhando em inglês, sem pressa, sem cobranças, só vivendo. :)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Sobre escolhas...

O Pablo e o Lipe adoram assistir Youtubers que ficam jogando jogos e aquela coisa que quase toda criança de hoje gosta. Como observamos que o Pablo estava nos tratando de forma bem rude, tentei dar uma mudada de ares (quando escrevi o texto eles estavam nas intermináveis férias de verão e não controlo muito o tempo de telas nas férias). Procurei um desenho fofo no Netflix (indicado pelo Paizinho, vírgula) e ele assistiu vários episódios.

No dia seguinte, antes que ele tivesse tempo de lembrar dos Youtubers que não trazem nada de bom, eu falei pra ele continuar vendo aqueles desenhos fofos que ele amou. O problema é que eram só 10 episódios e ele não queria ver de novo. Então ele passou uma meia hora tentando escolher uma nova série pra assistir e não conseguiu escolher. Foi pro Xbox pra escolher um jogo, mas também tinham muitas opções, ele desistiu. Mas ele acabou assistindo aqueles Youtubers inúteis (pelo menos os que falam palavrão eu consegui argumentar que ele não deve assistir).

Mas o que eu queria falar agora não tem nada a ver com Youtubers, tempo de tela ou culpa de mãe. É sobre escolhas e como as coisas mudaram MUITO nos últimos anos. Vamos pensar em televisão, só pra começar. Quando eu tinha a idade do Pablo, na minha casa tinha uma TV daquelas com botãozinho de girar, com 12 opções, mas o único canal que pegava em Tijucas era a Globo. Desenhos eram só no Xou da Xuxa e eu só tinha oportunidade de assistir quando ficava doente ou nas férias, já que eu estudava de manhã.

Como éramos privilegiados, logo tivemos antena parabólica, então eu tinha a opção do SBT, da Globo e da Cultura. Uaaaaauuu.. Mas os desenhos continuavam sendo só pela manhã, então eu raramente tinha oportunidade de assistir. E quando tinha, era o que apresentavam e pronto, sem escolhas.

Em 1997, instalamos a Sky, daí era muita opção. Tinha canal de notícias, canal de filmes, canal de desenhos... Era só ligar a TV e tava alí, prontinho pra ti assistir. A gente pegava o filme pela metade, outro dia via o começo, mas assim a gente vivia. Com "várias" opções pra escolher. Hahahahahahahaha...

Desde 2013 nós só usamos Netflix. Tivemos Oi TV, mas nunca usávamos. Quando nos mudamos pra cá, também tivemos alguma TV por assinatura porque vinha no pacote, mas nunca assistimos. Agora mudamos pra Hermosa e garantimos que não viria nada escondido no pacote, pois seria dinheiro jogado fora. O problema é que diante de tantas opções, eu tenho a maior dificuldade de escolher. Se não for indicação de um amigo ou sugestão do próprio Netflix, eu nunca sei o que escolher. É muita opção.

Uma vez vi uma pesquisa sobre escolhas, era um documentário, que infelizmente não sei o nome e nem onde assisti, mas provavelmente foi no Netflix (pra variar). O documentário mostrava que quando temos muitas opções, temos dificuldades pra decidir. Quando temos só duas ou três opções, escolhemos com maior facilidade, mas sempre achamos que escolhemos errado. Quando alguém escolhe pra gente, temos tendência a gostar da escolha.

Eu não gosto que me deem dinheiro de presente. Eu gosto quando as pessoas escolhem algo pensando em mim. Eu não sei comprar roupas pros meus filhos, por 9 anos eu dei o dinheiro pra minha irmã e ela comprou, porque eu não tenho paciência pra escolher no meio da infinidade de opções. Eu não leio nenhum livro porque não sei qual escolher. Eu, particularmente, tenho uma dificuldade imensa em fazer escolhas quando se tem muitas opções. Todos os dias eu me visto igual e essa é só mais uma das razões que eu tenho poucas peças de roupa.

Mas as possibilidades de escolha aumentaram em todos os lugares, desde o tipo de maionese que tu vai comprar no mercado, passando por qual mercado tu vai comprar até a escolha da tua profissão. Sim, a escolha da tua profissão. Quando meu pai teve que escolher o que fazer na faculdade, não existiam muitas profissões disponíveis. Muito menos cursos disponíveis na universidade e não era tão fácil descobrir onde teriam outros cursos, afinal, não tinha a internet.

Quando eu fui escolher a minha profissão, já existiam muitas opções, mesmo as "culturalmente aceitáveis", eram muitas. Passou pela minha cabeça fazer arquitetura, desenho industrial, psicologia, mas acabei fazendo administração assim que sai do ensino médio, "o curso de quem não sabe o que quer fazer". Por problemas financeiros eu parei o curso, e depois entrei em Matemática, porque era o curso mais fácil de entrar, depois de letras Alemão. Passei em penúltimo lugar, mas entrei. Dois anos depois eu larguei pra casar, porque passei no concurso da Celesc, que eu só fiz porque meu irmão trabalhava lá (Antes que mais alguém me pergunte se eu ENTREI porque meu irmão me "colocou" lá dentro: NÃO, eu entrei porque eu fiz concurso público e passei, em primeiro lugar. A única coisa que ele fez foi me avisar que tinha o concurso e me desejar boa sorte antes da prova.)

Acabei fazendo administração pra cumprir o protocolo social e porque a oportunidade surgiu no meu nariz, de fazer a graduação pela UFSC, de graça e a distância. Não dava pra perder. Mas estive infeliz no meu trabalho por muitos anos, só que simplesmente, não sabia o que fazer da vida, diante de tantas opções, pra que lado ir? A Doulagem surgiu de um sonho, sim, um sonho, daqueles que vem quando você tá dormindo. Mas ainda assim, eu não sei afinal em qual área da Doulagem eu quero investir e me aprofundar.

A vida é cheia de escolhas. Escolher continuar fazendo o que sempre fez é a opção mais fácil, mesmo quando o que estamos fazendo não é bom. Tendemos a não perceber o quanto temos opção de escolha. Acreditamos que precisamos de determinadas coisas, que na verdade, não precisamos. Acabamos repetindo padrões, porque sempre foi assim e assim que temos que fazer. NÃO!!!!! Nós podemos quebrar o padrão de comportamento. Nós podemos fazer diferente. Nós podemos escolher uma profissão não convencional, podemos viver de arte na sinaleira e morar num trailer. Nós podemos não nos relacionar com quem não nos faz bem. Nós podemos usar a mesma roupa todos os dias, nós podemos sair do emprego sufocante que exige um diploma e muitas horas extras e ir trabalhar no Subway. Sim, nós podemos. Cada escolha, uma renúncia. Mas a escolha é nossa!

Só pra constar, eu tenho noção do meu privilégio de poder fazer esse tipo de escolhas e sei que você que está lendo também tem (o privilégio e a noção). Sei que pra muitas pessoas, aliás, a maioria dos brasileiros, as escolhas são bem mais limitadas, pois elas não tiveram todas as oportunidades que tivemos pra chegar onde chegamos. Entendo que sou privilegiada e espero que você também. Mas também espero que você perceba que tem escolha e que só você pode fazer o movimento pra sair de onde está.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Escolas, educação e o que observo por aqui: Parte 2

Então a vida na escola nova começou. De cara já me pareceu bem mais organizada que a primeira, afinal, perceberam super rápido que o Pablo não ia se dar bem no segundo ano e tomaram as atitudes necessárias pra evitar problemas futuros. No dia da inscrição eu perguntei se poderia voluntariar na secretaria, porque eu não me imaginava em sala de aula. A secretária adorou a idéia, porque ela precisava mesmo de ajuda e ninguém nunca tinha se oferecido antes.

Também descobri, conversando com uma mãe, que voluntariar na sala de aula não tem muito a ver
com estar com as crianças, que meu trabalho seria tirar cópias, cortar coisas e fazer aquelas coisas que toda professora tem que fazer, mas que precisa de tempo, sendo assim, e considerando que "quase nem gosto" de mexer com papel, me ofereci pra voluntariar na sala do Lipe e na sala do Pablo.

A presença dos pais na escola é muito valorizada. Mesmo pais que trabalham full time, conseguem um jeitinho de ajudar a escola de alguma maneira, nem que seja nos eventos. Eu amo, me sinto útil e realmente adoro brincar de cortar coisa, tirar cópias, fazer serviço que nos dez anos de Celesc sempre passei pro estagiário, mas que no fundo, eu que queria fazer. Mas também adoro ajudar nos eventos pra arrecadar dinheiro pra escola ou as festas das turmas que precisam de pais pra dar uma mãozinha.

Meu trabalho na secretaria não durou muito, porque logo na segunda semana a Mrs. Cristine ganhou uma ajudante oficial. Mas toda quarta feira eu ajudo a Mrs. Meyers na biblioteca da escola do Pablo, colocando livros na prateleira e no momento tô focada em colocar um adesivo com a letra do nível de leitura em cada livro. Cada um dos tantos mil livros se enquadra num nível de leitura, de A a Z e eu vou ter que colocar adesivo em todos (não acaba nunca). O Pablo tá lendo nível I e o Lipe não sei dizer exatamente, mas ele já lê Harry Potter, que é nível V.

Pra ajudar na sala do Lipe eu basicamente tiro cópias. A criança aqui ficou impressionada com a máquina que grampeia e fura o papel sozinha, hahahahhahah. Não entro na sala do Lipe, a professora sempre me da meu trabalho do lado de fora. Então não tenho muita vivência além do que o Lipe traz pra casa. Consigo espiar que eles não sentam em fileiras, mas sim em grupo, como nos filmes. 

Na primeira semana de aula o Lipe teve que "aplicar" pra um "emprego", onde ele podia escolher ser o limpador do quadro, o telefonista, o abridor de porta, o banqueiro, o fiscal de deveres, fiscal de presença, entre outros. Ele teve que fazer currículo, portfólio e esperar uma semana pra ver se seria selecionado pra vaga escolhida. Toda criança tem um "emprego" e recebem salário (na moeda da turma, claro, que se chama "Dent Dollar") e tem que pagar pela sua cadeira todo mês. Se economizar, consegue comprar a cadeira e só paga imposto por ter a cadeira, mas não paga mais aluguel. Eles também pagam multa se fizerem coisa errada, ganham dinheiro extra se fizerem coisas boas e de vez em quando tem leilão com um monte de bugigangas pra eles comprarem as coisas que quiserem com seu dinheiro. Tudo isso em "Dent Dollar". Acho a idéia simplesmente brilhante. Ensinando desde cedo a cuidar do dinheiro e ter responsabilidades.

Outra coisa que me chamou a atenção foi que o Lipe tinha um parceiro de leitura no nível dele (teoricamente, porque ele foi colocado com um Canadense que só falava Francês, e a professora achava que eles estavam no mesmo nível, mas não estavam). Ele tinha que ler um certo número de páginas de um livro e o amigo também, e eles deveriam conversar a respeito no dia seguinte. Isso fez o Lipe resgatar o gosto pela leitura e eu só agradeço.

Outra coisa que observo e gosto muito é que diferente das escolas que ele teve no Brasil, aqui eles são instigados a pensar. As respostas não são prontas. As crianças são ensinadas a pesquisar as respostas pras perguntas, que eles também são incentivados a criar. Eles ensinam matemática de um jeito diferente, sem respostas necessariamente exatas, por mais estranho que possa parecer. Não vejo mais o Lipe decorando coisas, vejo ele entendendo o que tá aprendendo e isso pra mim, já fez a loucura da mudança valer a pena.

Já na sala do Pablo eu fico por duas horas toda sexta-feira, e lá dentro, vendo tudo acontecer. Lá eu corto papel, nossa, quanta coisa que tem pra cortar. A parte da pedagogia que eu sempre gostei, de fazer aquelas coisinhas fofas que só professoras fazem, bom, aqui são as mães voluntárias que fazem. Todo dia da semana tem uma, de tanta coisa que tem pra fazer. Não sei como seria possível sem a ajuda das mães. Aliás, simplesmente não seria possível.

A estrutura da sala de aula, mesmo que seja pública e bem inferior as particulares (pelo que a professora me contou), é algo que eu nunca tinha visto na vida. Tem mini biblioteca, cantinho da matemática, projetor, microfone pra professora, computador e tablet pra metade dos alunos (numa escola particular tem pra todos), pia pra lavar a mão, telefone, apontador de lápis automático, cortador de papel, estante pra secar trabalhinhos de artes, etc. Nunca entrei em sala de aula no Brasil que não fossem as que eu estudei, mas na escola que eu estudava, tinha um projetor pra escola inteira, assim como a maioria dos materiais que citei. Tudo bem que faz 17 anos que sai da escola e hoje as coisas devem ser diferentes, mas fiquei impressionada.

Todas as manhãs as professoras conferem se todos os alunos estão na sala, quem vai comer comida da cafeteria e comunica a secretaria (se ela esquece, a secretária chama ela no alto falante da sala e lembra). Aqui a presença é levada muito a sério e se chegar atrasado também, tudo controlado e vem escrito no report card (tipo um boletim). Se a criança não está na escola e os pais não avisaram que ele não estaria, os pais vão receber uma ligação informando. Isso me dá muita segurança em deixar o Felipe ir de patinete pra escola.

Sempre tem alguém dentro da sala, ou um pai que está ajudando, ou alguns funcionários que dão esse tipo de suporte, enfim, a professora quase nunca fica sozinha nas turmas iniciais. É muito interessante. Eu fico fascinada de estar dentro desse universo e vendo como tudo funciona. 

O Pablo sai da escola todo dia dizendo que foi muito legal e eu consigo entender porque. É tudo muito dinâmico, as atividades são rápidas, não dá tempo de ficar entediado. O aprendizado não é através de brincadeiras, mas é leve e gostoso. Toda semana uma criança é o cientista da semana e eles fazem experiências super simples e eu tenho a sorte de acompanhar quase todas, pois geralmente são nas sextas-feiras bem cedo. O cientista fica muito feliz, se sentindo importante, e as crianças que assistem, sempre ficam impressionadas com as descobertas. É muito fofo.

Eles ficam na escola das 08:15/08:30 as 14:49/14:35, almoçam na escola a comida que eu mando na marmita, o Pablo gosta de comer na cafeteria de vez em quando, eu deixo ele escolher dois dias da semana. Normalmente ele gosta de comer pizza, nuggets, mac and cheese ou cheeseburger, sim, é isso mesmo que servem na escola. Mesmo que eles coloquem os vegetais ali junto pra disfarçar, creio que a maioria das crianças jogue os vegetais fora. Por isso só permitimos duas vezes na semana. O Lipe só come na cafeteria quando é Emoji Fries e Nuggets.

Outra coisa que a gente vê nos filmes e que é real são os treinamentos pra terremotos, fogo e outras situações de perigo. Eles são muito frequentes, o que realmente é bom, porque se realmente acontecer, as crianças estão preparadas. Eu já passei por dois, um de lock down (quando vem um maluco atirando na escola ou outra situação parecida) e um de terremoto. Não interessa se eu sou só uma voluntária de passagem, preciso participar do treinamento. 

No dia do treinamento de lock down, eu tava na escola do Lipe e tive que ir pra baixo da carteira com ele. No dia do treinamento de terremoto eu entrei em pânico, mesmo sabendo que teria um treinamento. Eu estava na escola do Pablo, mas na biblioteca, com uma turma de pré. Tive que ir pra baixo da mesa junto com as crianças, lembrar elas de protegerem o pescoço e depois fomos caminhando até o pátio, onde os pais vão buscar as crianças depois, em casos de terremoto real. Foi tenso, mas é importante ter, pras crianças não pirarem igual eu pirei só no treinamento.

Sei que escrevi demais, mas é tanta emoção e tanta coisa pra contar, que fica difícil selecionar. Eu acho realmente que a nossa loucura valeu a pena, mesmo que fosse só pela experiência com a educação. Provavelmente esqueci de falar de um monte de coisa legal. Mas vou anotando e quem sabe, ainda caiba mais um post.