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sexta-feira, 27 de março de 2020

O coração e a razão. Brasil em mim...

Esses dias me peguei deitada em posição fetal ouvindo pagode anos 90. Então levantei pra fazer algo, me olhei no espelho, olhei minha tattoo, meu cabelo, me curti, dancei um pouco, sambei fazendo a casa inteira tremer, quase que literalmente, porque a casa aqui treme a cada passo, imagina com pulinhos de uma pessoa desajeitada tentando sambar.

Fiquei ouvindo pagode uma hora, mais ou menos. Consegui me animar por um tempinho. Logo a angústia voltou e eu só não voltei pra posição fetal porque tinha que dar comida pros meninos, lavar louça, tocar a vida. A música mudou de pagode pra Nando Reis, Marisa Monte, sei lá.. Algo por aí. Acho que uns 99% do tempo que estou acordada e sozinha eu estou ouvindo música, 90% das vezes é música brasileira. Agora revisando o texto, estou ouvindo Ira.. "Eu tentei fugir, não queria me alistar. Eu quero lutar, mas não com essa farda".

Há algumas semanas uma amiga me convidou pra ir num bar que ia tocar MPB. A cantora não era maravilhosa e o repertório não era o meu preferido, mas de alguma forma, me senti em casa. Tenho a mesma sensação quando tomo guaraná ou como coxinha, tipo, essas nem seriam as minhas escolhas se eu tivesse no Brasil, mas quando sinto o sabor, tem gostinho de casa.

Ué? Mas não eras tu que não tinha a menor saudade do Brasil e morria de medo de ter que voltar? Sim, essa era eu. Eu, há um ano, dois, três. Não sou a mesma pessoa que eu era quando comecei a escrever esse blog. Vivi experiências que me transformaram. Muita água passou por baixo da ponte nos últimos três anos. Eu ainda tenho medo de TER que voltar, sem oficialmente ter ESCOLHIDO voltar. E essa foi uma das razões de termos mudado pra Irlanda, porque a situação era muito instável na Califórnia.

Nesses pouco mais de três anos fora do Brasil, eu só tive no Brasil uma vez, por vinte dias, sozinha, onde eu passei a maior parte do tempo dentro da UTI segurando a mão do meu pai e quando eu estava fora do hospital, eu estava angustiada com medo de perdê-lo. Voltei pra Irlanda sem ter visto meu pai acordado e ainda sem ter certeza que ele sairia de lá vivo.

Eu nunca fui pra visitar, passar férias, curtir, ir num show da Dbregas e/ou Dazaranha, comer o polvo no marisqueira de Sintra, tomar um vinho com as amigas ou comer um rodízio de pizza com muita pizza doce. Passei na minha casa só por cinco minutos, depois de ter ido na casa do pai, onde vivi outra experiência muito difícil, a de entrar na casa do pai sem ele lá, e sem ter certeza que ele voltaria. Graças a Deus, voltou :o)

Hoje, a Carolina que sou hoje, as vezes tem vontade de voltar. Tenho vontade de morar no Brasil depois de toda a experiência vivida. Depois de conhecer dois países diferentes, depois de viver culturas diferentes, depois de tudo o que eu aprendi, especialmente, depois de ver na prática que não existe país perfeito. Mas como diz minha psicóloga, isso é um desejo, quando o desejo passa a ser realidade, a gente passa a desejar outra coisa.

Percebi que o desespero de voltar diminui bastante quando tenho contato com o Brasil de alguma forma. Quando encontro brasileiras, que eu converso por horas sobre qualquer coisa, porque a gente simplesmente se entende. E não tem nada como falar o teu idioma, falar, verbalizar. Escrever, eu escrevo todo dia. Seja aqui, seja no meu diário ou no whatsapp. Mas falar.. Nossa.. como é importante pra mim gastar meu estoque de palavras falando meu idioma.

Então é isso.. esse post não tem muita conclusão.. é só meu coração, oscilando entre querer voltar e querer ficar. E assim vamos vivendo, um dia de cada vez... Tentando sempre viver o aqui e o agora, o que está "um pouco" mais difícil em meio a essa pandemia.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Pedacinhos de felicidade na Irlanda


Vamos falar da parte meio cheia do copo? Eu poderia falar de poder de compra, de segurança, da simpatia dos irlandeses. Mas isso todo mundo fala. Eu quero falar dos pedacinhos de felicidade que EU encontro todos os dias ou de vez em quando.

Não sei se alguém reparou o nome do blog, mas tentei um monte de coisa que sugerisse viver pelo mundo e todos estavam ocupados, então chutei os dois bichos que eu mais tenho fascínio por aqui e funcionou, então fica assim mesmo. Eu nem sei porque gosto tanto desses bichos. Mas eles despertam algo legal em mim.

O Magpie eh um pássaro da família dos corvos e dizem que se você não falar “hello, mister magpie” quando encontra um, você terá azar. Eu sempre amei gatos pretos e acho que isso tem a ver com o meu lado bruxa, da conexão com a natureza, a intuição, enfim. Eu simplesmente AMO o magpie e cumprimento ele só porque gosto dele mesmo. De maneira geral, a Irlanda tem muitos pássaros lindos. Eu amo todos eles. Eles me trazem alegria todos os dias.

Já as raposas me trazem um certo medo, mas é um medo bom, não sei explicar. Eu queria ser amiga delas, mas elas me encaram de um jeito que eu paraliso. No verão elas adoravam passear pelo meu quintal, sempre com os olhos fixos em mim, me da frio na barriga, fico imóvel, mas morro de vontade de me aproximar, apesar de achar que não seria uma boa ideia. Nas noites de lua cheia elas fazem muito barulho e eu googleei e descobri que e porque as noites de lua cheia são mais iluminadas e então elas saem pra caçar. Os barulhos que elas fazem são para comunicação.

O fato de os dias serem curtos faz com que eu tenha muito mais oportunidade de observar as estrelas. Como não tem muita luz por aqui, dá pra ver muito mais estrelas do que eu via no Brasil ou na Califórnia. O problema é que dias que não estão nublados são MUITO mais frios que os dias nublados, então falta coragem pra ficar na rua muito tempo. Mas eu amo mesmo assim. A parte chata é que no verão não fica noite, noite. Então por alguns meses não dá de ver estrela alguma.

Falando em dias curtos e longos, eu não lembro quando tinha sido a última vez que presenciei um
nascer do sol antes de me mudar pra cá. Como no inverno o sol nasce oito e tantas da manhã, eu já estou na rua, a caminho da escola e isso me dá o presente de presenciar os nasceres do sol mais magníficos de toda a minha vida. Agora o sol já está nascendo antes de eu sair de casa, mas sei que no próximo inverno serei presenteada de novo.

Como os dias aqui são super malucos, costuma chover e dar sol várias vezes durante o mesmo dia, é muito comum nos depararmos com arco íris. Eu sempre fui apaixonada por eles e eu SEMPRE fico feliz quando vejo um, então quanto mais vezes eu vejo, mais vezes eu fico feliz.

Mas e essa louca da natureza? Tem coisas que não são relacionados a natureza que trazem felicidade na Irlanda? Teeeemmm… Bebês fofos e encapotados. Gente, eu simplesmente não consigo não achar suuuuuper fofo os bebês de todos os tamanhos no carrinho, cheinho de roupinhas e touquinhas e luvinhas. Numa boa!!! Eu não sei dos bastidores, não sei como é encher um bebê de roupa e a briga que é. Mas ver eles na rua assim, vivendo numa boa e não, eles não estão todos ranhentos como vocês podem estar visualizando, sempre acho fofo e mentalmente faço “aaawwwnnnn”. Acho muito legal como as pessoas simplesmente vivem no frio e não necessariamente ficam presas dentro de casa ou doentes a cada ventinho que pegam. Só pra constar, eu ainda fico doente mais do que deveria, mas já sou bem mais resistente do que era no Brasil.

Outra coisa que eu adoooooro é a simplicidade do chá e biscoito. Eu era acostumada com a cultura brasileira, onde comemos pra caramba e toda a socialização gira em torno da comida, e está subentendido que se tu convidares alguém pra tua casa, isso vai exigir um certo empenho em preparar algo pra receber a pessoa. Coffee break em algum curso? Normalmente recheado de comida. Comida, comida, comida! Por aqui é diferente. Adoro a simplicidade. Podemos ter conversas de horas tomando um chá e comendo um biscoitinho simples, tipo bolacha maria ou de leite. Acho prático e ao mesmo tempo acolhedor.

Pra finalizar, vamos falar de música. Infelizmente onde eu moro só tem um cara tocando ave maria no violino quase todo santo dia. No natal tinham pessoas tocando jingle bells com um trompete e teclado, era muito divertido. Mas de maneira geral, nos lugares mais turísticos sempre tem música, sempre tem alguém tocando alguma coisa e a vibe e super gostosa. De vez em quando rolam até uns brasileiros tocando samba, o que é bem gostoso.

Essas pequenas coisas me trazem alegria todos os dias. E claro que, como todo ser humano, tem dias em que não é tão fácil olhar a parte meio cheia do copo. Tem dias que eu sei que vai ter arco íris, mas não tenho vontade de sair pra rua pra procurar. Tem dias que não tô afim de chá e biscoito e tudo o que eu queria era um pão de queijo com chocoleite. Mas assim é a vida, né? Todo copo tem sua parte cheia e sua parte vazia. E tá tudo bem oscilar entre curtir a parte cheia ou lamentar a parte vazia.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Eu amo a Irlanda, maaaaasss...


Quando a gente pensa em mudar de país, a gente procura se informar o máximo possível, pesquisa, procura blogs, entra em canais no youtube, procura pessoas que moram no local há mais tempo e tudo mais. Mas de maneira geral, as pessoas tendem a compartilhar as partes boas. Poucas pessoas postam as partes ruins. E claro, é um jeito bacana de viver a vida, sempre olhando o copo meio cheio, maaaaaasss. É preciso ter consciência que o copo também está meio vazio. Não, não estou dizendo pra olhar somente pro copo vazio, mas ter consciência que todo copo tem duas metades nos faz tomarmos decisões mais conscientes. Afinal, como eu repito sempre, cada escolha, uma renúncia.

Pois então, seguimos as minhas percepções, frustrações, ilusões, mas também coisas que não são tao ruins como eu imaginava.

Cocô de cachorro. Misericórdia. Aqui não tem cachorro de rua, então não da de botar a culpa nos coitadinhos. A multa pra quem não limpa o cocô do cachorro é de 150 euros. Mas quem fiscaliza? Acho que ninguém, porque em todo lugar tem muito cocô de cachorro e a gente tem que andar sempre cuidando pra não pisar. Acho uma baita falta de respeito dos donos dos cachorros.

Pessoas que atravessam fora da faixa e motoristas que não param pra quem está esperando pra atravessar na faixa. Esse assunto é longo. No Brasil eu já me irritava bastante com isso, mas depois eu me acostumei com a Califórnia, onde de maneira geral, as pessoas são bem respeitosas com pedestres que pretendem atravessar na faixa. Inclusive, se tu estivesse em uma esquina, seria melhor não “parecer” que queria atravessar a rua, se não, os carros iriam parar. Na verdade, se você for visto atravessando fora da faixa pela polícia, você pode ser multado.

Mas e na Irlanda, minha gente? Bom, na Irlanda eu diria que em torno de 10% das pessoas atravessam na faixa. Normalmente eu sou uma das únicas “idiotas” que fica esperando o sinal abrir pra poder atravessar, ou que dá a volta ao mundo pra poder atravessar na faixa. Eu entendo, em partes. As sinaleiras demoram MUITO pra abrir. Enche o saco, eu confesso. Mas ainda assim, eu prefiro fazer certo e esperar abrir, com excessão da faixa perto de casa que está com defeito e simplesmente não abre nunca se não tiver passando carro, mas me sinto uma criminosa cada vez que atravesso com o sinal de pedestres vermelho.

Os motoristas que não param pra quem esta esperando pra atravessar e infelizmente não posso reclamar muito, já que a lei de trânsito irlandesa só exige que o motorista pare se o pedestre já tiver iniciado a travessia. Então é raríssimo alguém parar pra gente atravessar quando estamos esperando, ok, estão perdoados. Mas ainda fico chateada.

Lixo no chão. Bah, outra coisa que eu acho super triste. Apesar de sempre ter o carrinho varrendo o chão e limpando as ruas, ainda assim, tem muito lixo pelas ruas e também no trem e ônibus. Infelizmente, é completamente comum ver as pessoas abrindo um pacote de qualquer coisa e “deixando o papel cair”, assim, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Um dia eu estava numa festinha com o Pablo e vi as crianças abrindo pirulitos e jogando o papel no mar, e achando o máximo ver o papelzinho voar pro mar. Falta conscientização nas escolas, falta conscientização de maneira geral. Me dói a alma. Em determinadas épocas da vida eu me obrigo a juntar três lixos que encontro no chão por dia. Em determinadas épocas eu tento fingir que não vejo. Mas eu vejo, e conversei nas duas escolas pra fazer campanha de conscientização, porque as crianças podem mudar o mundo. Tomara que tenham me escutado.

Ah, eu quase ia esquecendo de comentar. A maioria das pessoas fuma. Imaginem o choque que eu levei quando fui matricular o Felipe no ensino secundário e dei de cara com um monte de criança (de uns 14, 15 anos) fumando. Nem no Brasil e nem na Califórnia as pessoas fumam desse jeito e infelizmente, ate os meninos já se acostumaram com o cheiro, que há um ano atrás eles não conseguiam suportar. Mas, paciência, né? Espero realmente mesmo que os meus filhos consigam se manter longe do cigarro.

A chuva e o frio. Pois geeeente… isso era o assunto mais falado quando eu procurava sobre pontos negativos da Irlanda. E juro, não eh tãaaaao horrível assim. Claro que morro de saudades de sentir calor, usar um vestido e exibir minhas tattoos lindas de viver, mas a gente se acostuma. A chuva não eh tao horrível como dizem. É raro chover forte. É uma garoazinha, normalmente, que nem vale a pena abrir o guarda chuva. Melhor é ter uma jaqueta a prova d'água, tênis a prova d'água e ser feliz. 

O corpo se acostuma e a gente comemora quando da mais de dez graus, porque esta “quente”. A gente se habitua a vestir cachecol, touca e um monte de blusas e tirar tudo a cada lugar que entra, pois tem aquecimento em todo lugar. Simplesmente faz parte da nossa vida. Eu não uso mais bolsa, por exemplo. Uso mochila (a prova d'água, claro) com um kit sobrevivência que inclui água, cachecol, touca, luva, álcool gel e todas as outras coisas que a gente carrega na bolsa.

A Irlanda eh ruim? Mas eh óbvio que não. Se fosse ruim, eu não estaria aqui. E é claro que vai rolar post sobre o que eu gosto daqui também. E talvez as coisas que me incomodam aqui, não vão te incomodar. Do mesmo jeito que voce pode talvez nunca se adaptar ao frio. Os países são diferentes, as culturas são diferentes e principalmente, as pessoas são diferentes. Essa eh a graça da vida, não achas?

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Mas e os meninos? Estão bem no inglês?

Mas e os meninos? Estão se virando bem no inglês? Arrisco dizer que essa é a pergunta que mais me fazem desde que nos mudamos pra cá. Acho que já deu pra perceber que eu gosto sempre de seguir uma certa ordem cronológica nos meus pensamentos, né? Então, vamos lá.


Com 13 anos eu comecei a estudar inglês no CCAA. "Good Morning, Magic Eyes, How are you? Fine, Thanks, and you?". No CCAA se aprende inglês como os bebês aprendem a falar. A gente escuta, repete sem entender mesmo, depois começa a usar aquelas palavras com algum contexto e assim vai evoluindo. Leitura e escrita vem por último. No CCAA eu costumava ser a melhor aluna, sempre muito elogiada pela pronuncia e por conseguir falar rápido e me fazer entender.

Depois de quatro anos de inglês, comecei a dar aulas. Uma das professoras teve bebê nessa época e vi ela falando inglês com ele e ali decidi que quando eu tivesse filhos, falaria inglês com eles desde a barriga. Preciso dizer que não foi bem assim que aconteceu?

Por imaturidade, parei de dar aulas de inglês. Me afastei quase completamente do inglês (digo quase porque eu nunca deixei de assistir filme legendado, por exemplo), mas sempre acreditei que ele estava ali, guardadinho, e que seria como andar de bicicleta: a gente nunca esquece. 10 anos depois de eu parar o inglês, o Diego começou a trabalhar com a empresa que ele trabalha hoje. E ele, que foi meu aluno um dia, começou a ir ficando cada vez melhor no inglês, enquanto eu permanecia na mesma.

Os meninos tinham o inglês da escola e só. Nunca consegui (e quando conseguiria, não tive coragem) pagar aulas de inglês pra eles. Uns meses antes de dar certo o visto, eu disse pro Lipe fazer duolingo, e ele fazia durante a tarde, um pouco, até encher o saco. O Pablo, nada! Por ele ser mais novo, sempre me disseram que ele aprenderia mais fácil.

Nos mudamos e levou um mês e meio pras aulas começarem. O que eles ouviam de inglês nesse tempo era em vídeos e os motoristas de uber que a gente cruzava, mas não tinham oportunidade de falar. As aulas começaram e na primeira semana o Lipe já tava se comunicando bem. Ele é mais peitudo, mete a cara e vai. Em poucos meses ele já tava me corrigindo e me ajudando com coisas que eu não entendo. A única coisa que me incomoda é ver o Lipe falando I "fink" quando tá querendo dizer "I Think". Fico louca, já expliquei mil vezes, mas não tem jeito, alguma alma ensinou pra ele assim no Brasil e não consigo fazer ele mudar.

O Pablo já teve um processo mais lento. No começo tava completamente perdido. Com o tempo, percebi que ele já entendia inglês, mas se eu perguntasse algo em inglês pra ele, ele respondia em português. O tempo foi passando e ele começou a arriscar a falar. Começaram as férias de verão e ele passou a ter pouca oportunidade de praticar o inglês. Em setembro as aulas começaram na escola nova e em um ou dois meses ele passou a falar mais inglês que português. 

Eu tenho bastante dificuldade pra me comunicar. Tenho impressão que as palavras estão trancadas em algum lugar do cérebro, elas simplesmente não saem. Na verdade, elas estão ali, na ponta da língua, mas não consigo transformar de pensamento pra fala. Então dou voltas, tento explicar com gestos, explico mais ou menos e as pessoas que me conhecem, acabam completando a frase ou falando a expressão correta e menos formal pra me ajudar. Na maioria das vezes eu sabia aquela palavra ou expressão, só não conseguia acessar. Não consigo entender.

Eu tenho ainda pouca oportunidade de conversar. Quando falo, demoro bastante e é difícil fazer uma conversa fluir como eu gostaria, apesar de as pessoas afirmarem que me entendem. Consigo conversar com uma pessoa por algumas horas, se estiver só eu e ela. Mas se tiver num grupo de pessoas falando não me sinto confiante pra entrar na conversa, fico mais observando, já que eu demoro bastante pra conseguir falar o que quero e nem todo mundo sabe do meu processo de aprendizagem.

Apesar de algumas pessoas aqui falarem que meu inglês é bom e que conseguem me entender, eu não me sinto segura falando inglês. Mas algo que acontece, que é interessante, é que eu não noto quando estou falando inglês ou português. Se estou falando inglês com alguém e de repente chega alguém falando português, eu começo a falar português sem perceber, esqueço que as outras pessoas não entendem português (apesar de muitas pessoas aqui falarem espanhol e ficarem curiosas por ser tão parecido). Parece que tem uma chave, que de um lado é inglês e outro português, e essa chave é automática, tu não percebe que ela mudou.

Normalmente os meninos saem da escola falando Inglês e continuam falando inglês sem perceber, até que alguém puxe algo em português, então eles mudam a chave pro português também sem notar. Mas o que hoje, um ano e dois meses depois da mudança, eu consigo perceber é que o inglês já está muito mais presente na cabeça deles do que o Português e mesmo quando eles falam português, eles acabam traduzindo do inglês pro português, como quando eles pedem "posso ter um bolinho de banana?" ou quando o Lipe fala "salvar a bateria" em vez de economizar. Em várias situações eles conseguem se expressar melhor em Inglês do que em Português.

Os meninos estão bem no inglês? Sim, estão melhores que eu, com um vocabulário super melhor que o meu e eles me ensinam coisas novas todos os dias. Tem bastante diferença entre o inglês que ensinam nos cursinhos e o inglês na prática. Também é legal falar, que por melhor que seja a nossa pronúncia, sempre vai dar pra saber de longe que não somos nativos, basta observar qualquer estrangeiro tentando falar português. O Pablo tem a pronúncia mais parecida com os americanos do que o Lipe, por causa da idade. Falamos inglês e português dentro de casa, sem nóias... e assim vivemos, as vezes pensando em português, as vezes sonhando em inglês, sem pressa, sem cobranças, só vivendo. :)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Escolas, educação e o que observo por aqui: Parte 1

Cá estou, depois de muitos meses sem escrever e fazendo um esforço gigante pra não colocar dois pontinhos no final de casa frase.. ops!?
Tem tanta coisa pra falar sobre escola, que nem sei por onde começar, mas acho que vou dividir em dois posts.

Vou começar pelo começo. Lá em Sunnyvale ainda. Estávamos totalmente perdidos com relação a escola, mas sabíamos que o preço do aluguel estava relacionado com a qualidade das escolas do local. No vale do silício, o aluguel que podíamos pagar era de casas (apartamentos) perto de escolas nota 6 ou 7, não mais do que isso. Notas maiores ficavam muito longe do trabalho do Diego (hahahahah, mal sabíamos o que o destino nos guardava).

Gostamos de um apartamento dentro do nosso preço e fomos conhecer a escola. A secretária era bem mal humorada, mas a escola não parecia ruim. Ok, vai ser aqui mesmo! Nos mudamos da casa provisória pro apto novo dia 23 de dezembro e a escola estava obviamente em recesso. Início de janeiro levei a papelada, mas faltavam as vacinas traduzidas. Até marcar a consulta no médico, traduzir as vacinas e ter tudo resolvido, eles começaram a escola uma semana depois.

Como o ano letivo começa em agosto/setembro, eles começariam na metade do ano letivo (Janeiro). Lipe foi pro quarto ano, o que achei ótimo, já que ele tinha terminado o quarto ano no Brasil, seria bom refazer metade pra ir pegando o jeito. Pablo foi pra segunda metade do primeiro ano, mesmo eu tendo explicado que ele não sabia a língua e que ele só tinha terminado o pré no Brasil. Não interessa. O que vale é a idade. Segura na mão de Deus e vai. Lipe foi super bem desde o começo (na foto ele tá conversando com a professora, super natural, no terceiro ou quarto dia de aula, mesmo sem nunca ter feito aula de inglês na vida) e o Pablo mais perdido que cego em tiroteio. Não tinha nenhum tipo de apoio, NENHUM tipo de apoio pra alunos que não falavam a língua. A professora do Pablo sugeriu autismo, já que ele não falava e se isolava. No mínimo previsível o comportamento dele, né? A criança nunca falou inglês além de cores e números na vida e de repente tem que entender tudo que pedem, aprender a ler, interagir com amigos falando em inglês assim, pá pum. Não sei que milagre ela esperava dele.

Enfim, veio a notícia da mudança, eu fiquei triste porque eles estavam adaptados e fazendo amigos, mas era a vida. Tínhamos que mudar. Perguntei pra professora do Pablo se ela achava que ele deveria repetir o primeiro ano e ela disse que não. Meu coração dizia que sim, mas achei que eu fosse uma incompetente na área pedagógica, resolvi confiar na professora.

Mudamos quando as aulas acabaram e fui nas escolas novas na primeira semana por aqui. A escola do Pablo vai até o terceiro ano e a do Lipe do quarto até o oitavo, pertencem ao mesmo distrito, mas são escolas diferentes. Nas duas escolas pediram se eu podia voltar depois, já que era a última semana de aula, mas nas duas escolas elas ficaram felizes porque eu tinha tudo prontinho e organizado, acabaram aceitando a inscrição naquele dia.

Mas agora estamos num distrito nota 10 (o aluguel aqui na região é um pouco mais acessível que era no vale so silício, então pelo mesmo valor, conseguimos escolas melhores) e também optamos por morar longe do trabalho do Diego pra vivermos melhor de maneira geral (ah, o mar...). Enfim, por ser um distrito nota 10, muita gente tenta burlar comprovante de endereço pra conseguir uma vaguinha. Então a inscrição só efetivou depois que eu recebi uma carta via correio com o "código secreto" meses depois, porque era férias de verão.

No fim de semana antes do começo das aulas eu já estava voluntariando em evento pra arrecadar dinheiro pra escola, mesmo sem entender direito como as coisas funcionavam, mas eu queria estar presente nas escolas dessa vez. As aulas começaram em setembro. Eu estava empolgadíssima com a idéia de voluntariar e os meninos estavam adorando suas turmas e as aulas.

Segundo dia de aula a professora do Pablo (2o ano) nos chama pra conversar. O Pablo foi avaliado e ele precisaria ir pro primeiro ano. Ele tinha perdido toda a base pra aprender a ler e escrever, ele corria o risco de passar a vida inteira com dificuldades na escola. Entrei em pânico, não por não achar que ele devesse ir pro primeiro ano, mas por não saber como falar pra ele que ele teria que trocar de turma DE NOVO. Afinal, ele tinha acabado de trocar de escola, tava amando a turma e a professora nova e teria que trocar mais uma vez.

Eu contei, contaminada pelas minhas emoções assustadas e ele desandou a chorar, dizendo que não trocaria de turma e ponto final. Era uma sexta feira e ele só começaria no primeiro ano na segunda-feira, o que transformou meu final de semana num mundo de ansiedade, apesar de o Pablo estar ótimo, já que o Diego já tinha comprado ele com um videogame novo.

Segunda feira combinamos que o Diego o levaria, porque meu nervosismo não ia fazer bem pra ele. Óbvio que eu não consegui respirar durante a manhã inteirinha. Quando fui busca-lo, ele estava saltitante e disse que foi o "best day ever". Ufa, mãe. Pode respirar aliviada. Vai ficar tudo bem. :)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Quando tudo parecia bem, lá vem mais história..

Passados os três primeiros meses de fossa, eu estava com a carteira de motorista na mão e começando a fazer amizades. Todas brasileiras, mas eu estava amando. Estava adorando andar de carro sozinha, me virar. Ir a happy hours, dar gargalhadas, ter uma vida só minha. Há anos eu não sabia o que era ter uma vida minha, da Carolina, sem filhos, sem marido. Por mais que a maioria das amizades tenham surgido do grupo "Mamães brasileiras do Vale do Silício", nossos encontros raramente envolviam filhos. Estava sendo uma experiência única pra mim, eu estava realmente feliz.

A empresa que o Diego trabalha andava estranha. Tinham tido algumas demissões, o clima estava meio tenso. Um dia qualquer até tínhamos conversado sobre eu ter lido no processo do visto que dizia que ele poderia trabalhar em Sunnyvale ou Los Angeles, divagamos, falamos e ok, tudo bem se algum dia precisar morar em Los Angeles, vai ser legal. Muito fácil falar, né? 

Um belo dia o Diego me manda uma mensagem "we're moving to LA". O escritório de Sunnyvale ia fechar e não tínhamos escolha. Não haveria mais possibilidade de trabalhar remoto. As opções eram mudar pra Los Angeles ou voltar pro Brasil, ambos desempregados. Mas como?? Não, eu não quero mudar pra LA, eu tô amando morar aqui, os meninos estão adaptados na escola, eu tô fazendo amizades, eu já conheço a cidade. Não quero!!!

Por que não usei minhas possibilidades de contato pra conseguir a licença sem remuneração na Celesc? Meu Deus, voltar pro Brasil? Os meninos perderam boa parte do ano escolar. Com o que eu vou trabalhar no Brasil nessa crise que tá? Nesse desemprego absurdo? Os meninos vão estudar em escola pública? E o plano de saúde? Não quero voltar pro Brasil. Não agora. Temos muito o que viver aqui. Mas também não quero ir pra Los Angeles. Eu nunca quis nem morar em Floripa porque era muito movimentado, imagina Los Angeles????

Eu lembro de conversar com a minha prima e ela ficar toda feliz com a ideia e eu fiquei muito puta. Gente, como assim? Los Angeles não tem nada a ver comigo. Chorei também pra minha amiga de adolescência e ela gritou de emoção pela possibilidade de ver artistas de cinema pela rua, hahahhahahahah. Gente, eu que no máximo sei o nome da Julia Roberts e do Robin Willians (esse só se eu encontrar com o fantasma pela rua)? Não acho a me-nor (isso mesmo, com intonação, tem que ler as duas sílabas separadas me-nor) graça nessa possiblidade. Não tô achando graça nenhuma nessa história.

Incentivei o Diego a fazer umas entrevistas no vale do silício. O medo da mudança era tanto, o medo de mudar de novo, de sofrer tudo aquilo que sofri no início de novo. Eu estava desesperada. Não queria sentir aquilo tudo de novo. Eu disfarçava que era sobre a adaptação dos meninos, mas era comigo mesmo o problema.

O universo mais uma vez deu seu empurrão e o Diego não teve sucesso em nenhuma das entrevistas. Contamos pros meninos que iriamos nos mudar de novo e no mesmo instante o Lipe falou: "mas nós já compramos até o sofá". O Pablo falou que queria ir de avião pra Los Angeles e depois compraríamos outro carro. Na cabecinha deles nós iríamos nos desfazer de tudo de novo e começar tudo do zero de novo, igual quando viemos do Brasil.

Não sabíamos quando seria a mudança e nem pra onde seria exatamente. Procurávamos bastante coisa na internet, mas nada agradava. Buscávamos por boas escolas, perto do trabalho, mas nada brilhava nossos olhos, o que podíamos pagar não era perto o suficiente do trabalho e não nos encantava.

Uma coisa era fato, eu tinha aprendido com a última despedida a valorizar as amizades e as oportunidades enquanto elas existem. Não recusei um convite. Dei um jeito de ir a todos os happy hours, almoços e caminhadas que fui convidada e também convidei. Plantei a sementinha da amizade e reguei o quanto pude.

Eu já estava engolindo a situação, mas não gostando dela, nem um pouco. Tava puta. Mas então veio a ideia de aumentar o tempo de deslocamento pro trabalho e morar na praia. Opa! Agora brilhou os olhos. As escolas na praia tinham notas ótimas. O preço do aluguel era o mesmo que pagávamos em Sunnyvale. Achamos o apartamento perfeito pela internet. Eu teria que levar o Diego todo dia no ponto de ônibus, que ficaria a 20 minutos de casa, mas foda-se, vale tudo pra morar na praia.

Em maio viemos conhecer alguns apartamentos. Aquele que gostamos na internet laçou nosso coração. A cidade é muito bela, como o próprio nome diz. Fica a cinco minutos caminhando da praia, onde tem um calçadão delicioso pra caminhar e um pier que é impossível descrever. O apartamento é bem mais iluminado que o anterior, em Sunnyvale. Os meninos correram e pularam no apartamento pra ter certeza que não iria tremer o prédio inteiro, como acontecia no anterior. É esse. Aqui vai ser nossa casa.

Início de junho o Diego se mudou, sozinho, dormindo num colchão de acampamento, comprou uma panela, um pote e talheres descartáveis. Eu queria que os meninos terminassem o ciclo na escola em Sunnyvale. No Brasil nós não esperamos encerrar o ciclo, havíamos esperado tanto pelo resultado do visto, que eu não queria esperar nem um dia a mais, mudamos uma semana antes do fim das aulas do Lipe e 3 semanas antes do fim das aulas do Pablo. Aqui eu fiz questão de esperar. Os meninos aproveitaram cada dia da última semana de aula e todas as programações especiais desse final de ano escolar. Fiz a despedida com as minhas amigas, sem choro, tendo certeza que as de verdade vão vir me visitar e no dia 14 de junho nos mudamos.

Nos mudamos pra Hermosa Beach, no sul da California. O Diego encontrou um ônibus que ele pega super pertinho de casa (não preciso leva-lo no ponto como pensávamos no início). O bus tem wi-fi e ar condicionado, leva em torno de uma hora até o trabalho. Quando ele volta, final de tarde, sempre dá uma passadinha pra ver o mar. Ele ouve todos os podcasts possíveis e olha instagran, twitter, reddit e todas as redes sociais possíveis no caminho do trabalho pra casa. Quando ele chega em casa, ele é todo nosso.

Eu estou fazendo yoga, sendo que um dia da semana é na praia (realização de mais um sonho). Estou com planos de voluntariar e provavelmente quando esse post for publicado eu já estarei voluntariando há um tempo. Todo dia eu faço questão de ver o mar. Levo a Fofinha pra passear e deixo ela cheirar os outros cachorros. Os donos dos outros cachorros deixam ela cheira-los, o que não era comum em Sunnyvale. 

Os meninos estão indo no Summer Camp, porque as aulas só começam em setembro e eu quero que eles continuem praticando o inglês e que façam amigos. Eles estão adorando ter o mar por perto e estão sentindo a alegria da mãe e do pai por estarem aqui.

Eu agradeço todo dia por essa oportunidade. Olho esse mar lindo, com o pôr do sol divino e só agradeço. Agradeço por tudo ter dado "errado". Sinto uma gratidão infinita. As vezes meu coração parece que vai explodir de gratidão. Eu tenho muito o que estruturar por aqui, mas realmente, definitivamante, não quero me mudar daqui tão cedo. E por razões totalmente diferentes da última vez que falei isso. Dessa vez eu digo que quero ficar aqui, porque me sinto em casa desde o primeiro dia que pisei aqui. Só agradeço. Gratidão.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Adaptação: As primeiras semanas. Ou meses?

Os primeiros dias depois que chegamos foram de extrema adaptação. A começar pela mudança de horário. Os meninos iam dormir super cedo e três horas da manhã estavam acordados fazendo barulho. A comida, socorro! Totalmente diferente do Brasil. Como o Lipe só come arroz, feijão e carne moída, não tava fácil achar a carne moída que ficasse do jeito que ele gosta, o arroz parboilizado, a bolacha água e sal (só encontrei meses depois no mercado brasileiro). Mesmo os nuggets que poderiam quebrar um galho (julguem-me) eram super apimentados.

Eu esperava que o Pablo fosse relutar muito. Como ele não queria vir, e quando veio disse que iria voltar pra casa no "sábado", achei que seria muito difícil pra ele aceitar a nova realidade. Também estava preocupada com o Diego, que estava acostumado a trabalhar de casa nos últimos cinco anos e estava longe da banda. Estava preocupada com o Lipe e a forma sensível dele encarar as coisas. Estava apavorada com o sofrimento da Fofinha vindo no bagageiro do avião sem entender nada. A última pessoa que eu estava achando que teria problemas seria eu. Ha ha ha!!!!!!

A Fofinha chegou ótima e no mesmo dia teve festa de final de ano da empresa do Diego, que eu tava empolgada (apesar de assustada) pra ir. Queria ver gente, interagir. Primeiro choque!!! Onde foram parar aqueles cinco anos de inglês? Por que não consigo me comunicar? Porque não consigo conversar com as pessoas como eu sempre achei que seria natural? Que vergonha, o Diego disse que eu fui professora de Inglês, que fiasco. Tudo bem. Sigamos em frente.

O clima não ajudava em nada, chuva e frio. Não tínhamos carro, não tinha nada a menos de 30 minutos caminhando da casa que estávamos (parece pouco, mas com duas crianças no frio e na chuva não é muito recomendável). Eu via as coisas acontecendo no Brasil. Show da Dbregas, todas as festas de final de ano possíveis (que eu não iria, mas não tinha sanidade mental pra entender isso no momento), meu sobrinho pitoquinho, o pesar de estar longe de todas aquelas pessoas que fizeram declarações de amor nas nossas despedidas (que a essa altura já nem lembravam mais da nossa existência).

Começou a bater o desespero. Eu botava a mão na cabeça e os pensamentos borbulhavam na minha cabeça: "o que que eu fiz da minha vida?", "por que eu quis tanto vir pra cá?", "joguei a minha vida perfeita no lixo". Eu chorava dia, noite e madrugada. Ainda não tínhamos encontrado nossa casa definitiva, os meninos não tinham escola, eles só jogavam videogame e eu me culpava. Não que eles fossem fazer algo diferente se estivéssemos no Brasil, mas eu me culpava mesmo assim.

Encontramos nossa casa atual e nos mudamos. Alugamos um carro pra fazer a mudança e pra passar natal e ano novo, assim poderíamos passear e eu sairia daquela fossa. Mas não. O Diego ficou doente e o máximo que o carro foi usado foi pra ele ir na emergência. Ok, nós demos umas passeadinhas, mas o Diego doente fica num mau humor absurdo e hoje eu me sinto culpada (pra variar) por esperar que ele tivesse feliz e sorrindo mesmo com febre (eu nunca tinha ficado doente na minha vida antes, mas claro que aqui já fiquei, então pude sentir na pele como é, sempre achei que fosse frescura de homem - Não é!).

Como que aquele ano que tinha sido tão intenso e feliz poderia estar acabando de uma forma tão desagradável? Mas ele finalmente acabou, ufa. Com o início do novo ano as coisas começaram a dar uma engrenada. Devagarinho. Os meninos tinham que começar a escola, tínhamos que providenciar documentação, exames médicos, carteitinha de vacinação traduzida e isso foi me tirando daquela nóia. O foco agora era a adaptação deles na escola e só durou dois dias, pois eles se adaptaram muito mais rápido do que eu esperava.

Levávamos eles na escola de Uber e eu os buscava a pé. Sem problemas dos outros pra resolver, eu era obrigada a olhar pra mim. Eu tinha um longo tempo sozinha em casa com a Fofinha. E agora? Chorei muito sozinha em casa. Eu fiquei totalmente perdida, sem saber quem eu era. A única coisa que eu tinha pra fazer era serviço "de casa", que convenhamos, sempre tem e é um pé no saco. Fui fuçando no facebook, encontrei uma brasileira na mesma situação que me indicou uns grupos de facebook de brasileiras aqui na região e o grupo de conversação na biblioteca.

Comecei a escrever esse blog como forma de ocupar meu tempo e organizar as idéias. Decidi ir na conversação e me senti super importante por andar de ônibus sozinha, hahahahahah. Logo compramos o carro, fiz a carteira de motorista e me senti livre de verdade, já que amo dirigir. Coloco o destino no google maps e vou ser feliz. Com o carro na mão, comecei a ir nos playdates me encontrar com as brasileiras, depois comecei a ir num happy hour de gringos que querem aprender português (que tem mais brasileiros que gringos :oP), happy hour de mamães brasileiras, enfim, fazer amizades. Aquele pacote cheio de lego que estava uma bagunça já está separado por cores e a boa parte da nova casinha já está montada.

Estou fazendo terapia e claro que tem muitas questões pra serem trabalhadas ainda, vou ter que olhar cada cor de peça. Tem muitas peças que não sei onde devem ser encaixadas ou SE elas ainda devem ser encaixadas. Tem peças de cores que só tem aqui e que já fazem parte da minha nova construção. Tem um monte de peças que não servem mais e vão pro lixo, com toda certeza. Muitas já foram. A cor referente ao lado profissional? Bom, preciso pensar sobre ela pra saber o que fazer quando eu tiver autorização pra trabalhar. Ser dona de casa e dependente do marido? Putz, essas peças ainda estão uma zona, mas vai rolar um post inteirinho sobre esse assunto.

O tempo passou e já tem quase seis meses que estamos aqui. Se estou feliz aqui? Sim, hoje tenho certeza que estou. Foi difícil? Foi, muito! Agradeço a cada amigo que me aturou super depressiva no whatsapp nos primeiros meses e a cada nova amiga que me ajudou a sair do chororô. Não foi fácil. Mas está valendo a pena e hoje já tenho certeza que faria tudo de novo e de novo... não tem bem material que equivalha a essa experiência. Só agradeço. :)