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quarta-feira, 18 de março de 2020

O que eu amo e o que detesto do ensino secundário na Irlanda

Os meninos entraram na escola em abril e eu já fiquei sabendo que eu precisaria procurar escola pro próximo ano pro Felipe, já que ele estava no sexto ano, último ano do ensino primário na Irlanda. A pessoa que encontrou a escola pra gente foi super gentil e me deu as dicas, sugeriu que eu conversasse com o diretor pra perguntar quais as escolas os alunos deles iriam no próximo ano. Mandei email pra todas, e depois de saber quais tinham vagas, escolhemos a que gostamos mais. Era mista (meninos e meninas) e a religião não parecia ser muito o foco.

Antes de começar o ano letivo o Lipe teve três dias de integração, ele foi em um lugar com tirolesas, um parque aquático e um mini golf, achei super bacana, afinal, as crianças (que não são filhas de pais que adoram se mudar, claro) estudaram por oito ou nove anos na mesma escola e agora vão mudar pra uma completamente diferente. Achei acolhedor e um super começo.

As aulas começaram e eu achei as regras um pouco rígidas demais. Pra não falar absurdas. Se o Felipe chega um minuto atrasado, ele fica na detenção, ou seja, ele perde dez minutos do almoço dele como punição. Isso acontece se ele esquecer algum material, se eu não assinar o diário dele ou se ele fizer qualquer coisa fora das regras da escola. Como uma ativista da criação com apego e disciplina positiva, dá pra imaginar o que eu penso sobre esse tipo de punição, né?

Mas ok, o Felipe sofreu bullying uma vez, o carinha já vinha incomodando há um tempo, e o menino foi expulso da escola. Isso mesmo, expulso. Claro que antes de ser expulso, fica várias vezes na detenção, depois é suspenso algumas vezes e só então é expulso. O bullying com o Felipe foi a gota d'água. Eu acho ótimo que o menino tenha sido expulso e o Felipe não tenha que lidar com ele todos os dias, mas poxa.. Será que alguém cuidou do bully? Será que alguém olhou pra ele e tentou entender o porquê desse comportamento? Ok, essa parte eles ficam devendo.

O Ensino é tradicional, mas eu já esperava. Tem pouca participação e menos mão na massa do que eu considero ideal, voltamos pro esquema que o professor é autoridade e o aluno só escuta. A escola do Felipe não é uma escola que a galera gosta muito. Academicamente não é uma das mais fortes, mas como já falei em outro post, não é meu foco com escolas, por mais estranho que possa parecer.

E agora a surpresa! Frequentemente o Felipe me conta que não teve aula tal porque o professor não foi. Sim, faltam professores. Em fevereiro teve até greve. Sim, meus senhores, estou na europa e faltam professores nas escolas públicas também. Nenhum lugar é perfeito. Aqui os professores também não são valorizados como deveriam.

Mas vamos falar de coisas boas? Eu amo o fato de ter uma bandeira arco íris na frente da escola e de eles dedicarem tanto tempo pra conversar sobre a comunidade LGBTQ+ (me perdoem se esqueci alguém) e lembrar as crianças que elas são aceitas ali. E isso é tão mágico que dois colegas do Felipe já se identificam aos 12 anos como bi. Vocês podem imaginar que coisa mais linda? Que meu filho estuda numa escola que ele sabe que ele pode ser quem ele quiser, porque ele sabe que lá ele será aceito de qualquer forma? Eu morro de orgulho e eu não sei se isso é algo da Irlanda ou da escola do Felipe, mas eu sou grata por ele estar onde está.

Diversidade. Sim, na escola do Lipe também tem gente do mundo todo e isso é tão rico, nem tenho palavras. E já que estamos falando em diversidade, preciso contar que nas aulas de religião eles aprendem sobre comunidade e as principais religiões. Eles aprendem um pouco de cada e como respeitar uns aos outros. Essas coisas pra mim, sinceramente, não tem preço.

Mesmo que seja de forma tradicional, eu fico muito feliz de saber que no currículo da escola tenham as matérias política em sociedade e saúde em sociedade. Ele também tem artes, business e francês. (Ele poderia ter escolhido economia do lar, música ou marcenaria). E quando ele tiver no senior cycle, que são os três últimos anos, creio que equivalente ao ensino médio no brasil, ele vai ter educação sexual e sobre relacionamentos. Sim, faz parte do currículo.

Além de todas essas coisas legais, ainda tem alguns mimos que eu acho fofos, tipo, eles mandam pelo correio um cartão postal (com artes dos alunos dos anos anteriores) elogiando o desempenho nas atividades, elogiando que ele ajudou o professor tal, elogiando isso e aquilo. Eu acho fofo. E também, se participar do clube dos deveres que tem depois das aulas todos os dias da semana, na sexta feira eles ganham um “chicken roll” na sexta feira, que é basicamente um pão com nuggets.

Ah, quase ia esquecendo que eu amo o tanto que eles estimulam a escrita e a arte de maneira geral. A
escola é cheinha de obras dos alunos que estudaram lá antes. Eu acho muito legal, afinal, o Lipe adora desenhar e ele ta podendo explorar esse dom na escola, e claro que eu adoraria que ele gostasse de escrever do jeito que eu gosto.

Depois de ter esse texto prontinho, teve uma reunião de pais, que eu não posso deixar de compartilhar. Quando cheguei na escola estava o Felipe, oferecendo chá e biscoitos, que os amigos dele estavam servindo. Do outro lado, funcionárias com a lista de professores de cada aluno e alguns alunos entregando canetas. Dentro da biblioteca, os professores sentados em círculo, com placas com seus nomes. Os pais foram de professor em professor, até completar toda a lista, ouvir o que eles tinham pra falar sobre os nossos filhos. Eu achei muito aconchegante. Todo aluno importa pra eles. Na Califórnia, depois que vai pro "middle school" só tem reunião com professores se teu filho causa problemas. Oi?! Ir nessa reunião me trouxe um calor gostoso no coração. Os professores não falaram só das notas do Felipe, eles falaram sobre o Felipe como ser humano, muito além de "é comportado".

Confesso que eu termino esse texto bem feliz. Ultimamente eu venho me perguntando “o que que eu tô fazendo aqui?” e depois de escrever, escrever e escrever… eu já tenho as respostas. Obrigada por me ler até aqui :o)

quarta-feira, 11 de março de 2020

Pedacinhos de felicidade na Irlanda


Vamos falar da parte meio cheia do copo? Eu poderia falar de poder de compra, de segurança, da simpatia dos irlandeses. Mas isso todo mundo fala. Eu quero falar dos pedacinhos de felicidade que EU encontro todos os dias ou de vez em quando.

Não sei se alguém reparou o nome do blog, mas tentei um monte de coisa que sugerisse viver pelo mundo e todos estavam ocupados, então chutei os dois bichos que eu mais tenho fascínio por aqui e funcionou, então fica assim mesmo. Eu nem sei porque gosto tanto desses bichos. Mas eles despertam algo legal em mim.

O Magpie eh um pássaro da família dos corvos e dizem que se você não falar “hello, mister magpie” quando encontra um, você terá azar. Eu sempre amei gatos pretos e acho que isso tem a ver com o meu lado bruxa, da conexão com a natureza, a intuição, enfim. Eu simplesmente AMO o magpie e cumprimento ele só porque gosto dele mesmo. De maneira geral, a Irlanda tem muitos pássaros lindos. Eu amo todos eles. Eles me trazem alegria todos os dias.

Já as raposas me trazem um certo medo, mas é um medo bom, não sei explicar. Eu queria ser amiga delas, mas elas me encaram de um jeito que eu paraliso. No verão elas adoravam passear pelo meu quintal, sempre com os olhos fixos em mim, me da frio na barriga, fico imóvel, mas morro de vontade de me aproximar, apesar de achar que não seria uma boa ideia. Nas noites de lua cheia elas fazem muito barulho e eu googleei e descobri que e porque as noites de lua cheia são mais iluminadas e então elas saem pra caçar. Os barulhos que elas fazem são para comunicação.

O fato de os dias serem curtos faz com que eu tenha muito mais oportunidade de observar as estrelas. Como não tem muita luz por aqui, dá pra ver muito mais estrelas do que eu via no Brasil ou na Califórnia. O problema é que dias que não estão nublados são MUITO mais frios que os dias nublados, então falta coragem pra ficar na rua muito tempo. Mas eu amo mesmo assim. A parte chata é que no verão não fica noite, noite. Então por alguns meses não dá de ver estrela alguma.

Falando em dias curtos e longos, eu não lembro quando tinha sido a última vez que presenciei um
nascer do sol antes de me mudar pra cá. Como no inverno o sol nasce oito e tantas da manhã, eu já estou na rua, a caminho da escola e isso me dá o presente de presenciar os nasceres do sol mais magníficos de toda a minha vida. Agora o sol já está nascendo antes de eu sair de casa, mas sei que no próximo inverno serei presenteada de novo.

Como os dias aqui são super malucos, costuma chover e dar sol várias vezes durante o mesmo dia, é muito comum nos depararmos com arco íris. Eu sempre fui apaixonada por eles e eu SEMPRE fico feliz quando vejo um, então quanto mais vezes eu vejo, mais vezes eu fico feliz.

Mas e essa louca da natureza? Tem coisas que não são relacionados a natureza que trazem felicidade na Irlanda? Teeeemmm… Bebês fofos e encapotados. Gente, eu simplesmente não consigo não achar suuuuuper fofo os bebês de todos os tamanhos no carrinho, cheinho de roupinhas e touquinhas e luvinhas. Numa boa!!! Eu não sei dos bastidores, não sei como é encher um bebê de roupa e a briga que é. Mas ver eles na rua assim, vivendo numa boa e não, eles não estão todos ranhentos como vocês podem estar visualizando, sempre acho fofo e mentalmente faço “aaawwwnnnn”. Acho muito legal como as pessoas simplesmente vivem no frio e não necessariamente ficam presas dentro de casa ou doentes a cada ventinho que pegam. Só pra constar, eu ainda fico doente mais do que deveria, mas já sou bem mais resistente do que era no Brasil.

Outra coisa que eu adoooooro é a simplicidade do chá e biscoito. Eu era acostumada com a cultura brasileira, onde comemos pra caramba e toda a socialização gira em torno da comida, e está subentendido que se tu convidares alguém pra tua casa, isso vai exigir um certo empenho em preparar algo pra receber a pessoa. Coffee break em algum curso? Normalmente recheado de comida. Comida, comida, comida! Por aqui é diferente. Adoro a simplicidade. Podemos ter conversas de horas tomando um chá e comendo um biscoitinho simples, tipo bolacha maria ou de leite. Acho prático e ao mesmo tempo acolhedor.

Pra finalizar, vamos falar de música. Infelizmente onde eu moro só tem um cara tocando ave maria no violino quase todo santo dia. No natal tinham pessoas tocando jingle bells com um trompete e teclado, era muito divertido. Mas de maneira geral, nos lugares mais turísticos sempre tem música, sempre tem alguém tocando alguma coisa e a vibe e super gostosa. De vez em quando rolam até uns brasileiros tocando samba, o que é bem gostoso.

Essas pequenas coisas me trazem alegria todos os dias. E claro que, como todo ser humano, tem dias em que não é tão fácil olhar a parte meio cheia do copo. Tem dias que eu sei que vai ter arco íris, mas não tenho vontade de sair pra rua pra procurar. Tem dias que não tô afim de chá e biscoito e tudo o que eu queria era um pão de queijo com chocoleite. Mas assim é a vida, né? Todo copo tem sua parte cheia e sua parte vazia. E tá tudo bem oscilar entre curtir a parte cheia ou lamentar a parte vazia.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Eu amo a Irlanda, maaaaasss...


Quando a gente pensa em mudar de país, a gente procura se informar o máximo possível, pesquisa, procura blogs, entra em canais no youtube, procura pessoas que moram no local há mais tempo e tudo mais. Mas de maneira geral, as pessoas tendem a compartilhar as partes boas. Poucas pessoas postam as partes ruins. E claro, é um jeito bacana de viver a vida, sempre olhando o copo meio cheio, maaaaaasss. É preciso ter consciência que o copo também está meio vazio. Não, não estou dizendo pra olhar somente pro copo vazio, mas ter consciência que todo copo tem duas metades nos faz tomarmos decisões mais conscientes. Afinal, como eu repito sempre, cada escolha, uma renúncia.

Pois então, seguimos as minhas percepções, frustrações, ilusões, mas também coisas que não são tao ruins como eu imaginava.

Cocô de cachorro. Misericórdia. Aqui não tem cachorro de rua, então não da de botar a culpa nos coitadinhos. A multa pra quem não limpa o cocô do cachorro é de 150 euros. Mas quem fiscaliza? Acho que ninguém, porque em todo lugar tem muito cocô de cachorro e a gente tem que andar sempre cuidando pra não pisar. Acho uma baita falta de respeito dos donos dos cachorros.

Pessoas que atravessam fora da faixa e motoristas que não param pra quem está esperando pra atravessar na faixa. Esse assunto é longo. No Brasil eu já me irritava bastante com isso, mas depois eu me acostumei com a Califórnia, onde de maneira geral, as pessoas são bem respeitosas com pedestres que pretendem atravessar na faixa. Inclusive, se tu estivesse em uma esquina, seria melhor não “parecer” que queria atravessar a rua, se não, os carros iriam parar. Na verdade, se você for visto atravessando fora da faixa pela polícia, você pode ser multado.

Mas e na Irlanda, minha gente? Bom, na Irlanda eu diria que em torno de 10% das pessoas atravessam na faixa. Normalmente eu sou uma das únicas “idiotas” que fica esperando o sinal abrir pra poder atravessar, ou que dá a volta ao mundo pra poder atravessar na faixa. Eu entendo, em partes. As sinaleiras demoram MUITO pra abrir. Enche o saco, eu confesso. Mas ainda assim, eu prefiro fazer certo e esperar abrir, com excessão da faixa perto de casa que está com defeito e simplesmente não abre nunca se não tiver passando carro, mas me sinto uma criminosa cada vez que atravesso com o sinal de pedestres vermelho.

Os motoristas que não param pra quem esta esperando pra atravessar e infelizmente não posso reclamar muito, já que a lei de trânsito irlandesa só exige que o motorista pare se o pedestre já tiver iniciado a travessia. Então é raríssimo alguém parar pra gente atravessar quando estamos esperando, ok, estão perdoados. Mas ainda fico chateada.

Lixo no chão. Bah, outra coisa que eu acho super triste. Apesar de sempre ter o carrinho varrendo o chão e limpando as ruas, ainda assim, tem muito lixo pelas ruas e também no trem e ônibus. Infelizmente, é completamente comum ver as pessoas abrindo um pacote de qualquer coisa e “deixando o papel cair”, assim, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Um dia eu estava numa festinha com o Pablo e vi as crianças abrindo pirulitos e jogando o papel no mar, e achando o máximo ver o papelzinho voar pro mar. Falta conscientização nas escolas, falta conscientização de maneira geral. Me dói a alma. Em determinadas épocas da vida eu me obrigo a juntar três lixos que encontro no chão por dia. Em determinadas épocas eu tento fingir que não vejo. Mas eu vejo, e conversei nas duas escolas pra fazer campanha de conscientização, porque as crianças podem mudar o mundo. Tomara que tenham me escutado.

Ah, eu quase ia esquecendo de comentar. A maioria das pessoas fuma. Imaginem o choque que eu levei quando fui matricular o Felipe no ensino secundário e dei de cara com um monte de criança (de uns 14, 15 anos) fumando. Nem no Brasil e nem na Califórnia as pessoas fumam desse jeito e infelizmente, ate os meninos já se acostumaram com o cheiro, que há um ano atrás eles não conseguiam suportar. Mas, paciência, né? Espero realmente mesmo que os meus filhos consigam se manter longe do cigarro.

A chuva e o frio. Pois geeeente… isso era o assunto mais falado quando eu procurava sobre pontos negativos da Irlanda. E juro, não eh tãaaaao horrível assim. Claro que morro de saudades de sentir calor, usar um vestido e exibir minhas tattoos lindas de viver, mas a gente se acostuma. A chuva não eh tao horrível como dizem. É raro chover forte. É uma garoazinha, normalmente, que nem vale a pena abrir o guarda chuva. Melhor é ter uma jaqueta a prova d'água, tênis a prova d'água e ser feliz. 

O corpo se acostuma e a gente comemora quando da mais de dez graus, porque esta “quente”. A gente se habitua a vestir cachecol, touca e um monte de blusas e tirar tudo a cada lugar que entra, pois tem aquecimento em todo lugar. Simplesmente faz parte da nossa vida. Eu não uso mais bolsa, por exemplo. Uso mochila (a prova d'água, claro) com um kit sobrevivência que inclui água, cachecol, touca, luva, álcool gel e todas as outras coisas que a gente carrega na bolsa.

A Irlanda eh ruim? Mas eh óbvio que não. Se fosse ruim, eu não estaria aqui. E é claro que vai rolar post sobre o que eu gosto daqui também. E talvez as coisas que me incomodam aqui, não vão te incomodar. Do mesmo jeito que voce pode talvez nunca se adaptar ao frio. Os países são diferentes, as culturas são diferentes e principalmente, as pessoas são diferentes. Essa eh a graça da vida, não achas?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Minhas impressões sobre a educação na Irlanda

O Lipe tem quase treze anos e ele já estudou em nove escolas ao longo da vida. O Pablo com nove anos de idade estudou em sete escolas.  Eles foram pra escola aos cinco e seis meses de idade respectivamente e nos mudamos bastante, mas também nós trocamos eles de escola algumas vezes buscando alguma opção melhor. Até que trocamos de país buscando uma educação melhor. 

Foi maravilhoso, foi incrível, foi mágico, mas não foi perfeito. Eles estudavam em escolas nota dez na classificação nacional, mas eram escolas sem diversidade alguma, com muita competitividade e muitos elogios vazios. O ensino na California não era tradicional, eles colocavam bastante a mão na massa, eram ensinados a questionar (em determinados assuntos, claro) e prometiam lealdade a bandeira americana todas as manhãs. Oi??? É, isso mesmo, mãozinha no peito todas as manhãs pra prometer lealdade a bandeira americana. Eu tentava abstrair e pensar só nas coisas bacanas.

Como já falei antes, nosso medo de mudar pra Irlanda era que de alguma forma impusessem o catolicismo na escola. Depois de dar um jeito de encontrar um irlandês pra me contar como eram as escolas e me falarem um pouco eu pensei, que mal há em rezar um "Pai Nosso" se hoje eles estão prometendo lealdade a um país que nem é deles?

Diferente de quando fomos pra California, dessa vez tinha uma empresa ajudando com todos os detalhes da nossa mudança. E uma coisa maravilhosa que eles fizeram foi encontrar uma escola que aceitasse os dois juntos e no último termo (as aulas são divididas em termos de uns três meses aproximadamente). Aqui na Irlanda é muito comum escolas só de meninos e só de meninas. Nós fizemos questão de que fosse uma escola mista.

As escolas mistas não são tão fortes academicamente. Mas depois de tantas escolas pela vida, entendemos que pra nós é importante que eles saibam lidar com as diferenças em todos os aspectos e aprendam coisas pra vida, como trabalhar em equipe, socializar, chegar no horário, organização, gostar de ler, viver em sociedade.

Pra nossa alegria, a escola tem gente de inúmeros países, inclusive, somos em quatro famílias brasileiras. Eles tem até um mapa simbolizando todos os países representados. E tem outros países sem o alfinete, porque de vez em quando alguém fica triste que seu país não tá representado e troca o negócio de lugar. Na turminha do Pablo são 23 alunos e somente 3 são irlandeses. Tem gente da Italia, Espanha, Polonia, Eslovaquia, Moldova, India, Filipinas e vários outros lugares que eu não gravei.

A escola é super pequenininha e eles tem uma funcionária que o trabalho dela é estreitar as relações entre a escola e os pais. Qualquer hora que eu quiser tomar um café na escola, ela vai estar lá, pra conversar, checar se tem leite e correr pra resolver alguma outra coisa. Ela também ajuda a associação de pais nos eventos pra arrecadar dinheiro e promove cursos gratuitos na cozinha da escola, eu já fiz curso de culinária e de educação de filhos, mas tem também de artesanato, decoração de bolos, já teve até ioga. Eu acho o máximo! Não tem voluntariado na sala de aula como tinha na Califórnia, mas tem esses eventos pra trazer os pais pra escola. 

Eu também acho fofo que em qualquer evento que envolva os pais, sempre tem café e biscoito depois, e nada de produto descartável. É xícara e pires, que a gente (os voluntários) lava depois e guarda. Eu acho tão gostoso, tão jeitinho de casa de vó, tão aconchegante.

Pra voluntariar em qualquer evento que envolva as crianças, tipo, na próxima semana terá o dia do cachorro quente, é necessário ser "garda vetted", que significa que tu mandou todos os teus dados pra polícia da Irlanda e eles disseram que ok, pode trabalhar com crianças que você é uma pessoa do bem.

O ensino é bem tradicional, professora explica, alunos sentadinhos escutando e depois fazem alguma atividade. Eles usam uniforme social (o Pablo usa até gravata) e nas regras da escola dizem que tem que estar de cabelo sempre bem cortado e penteado (meus filhos burlam essa regra diariamente, porque vivem descabelados).

E a religião, Carol? Como que funciona? Acho que essa foi a melhor surpresa. Aqui a primeira comunhão é dentro da escola. Faz parte do currículo. Quando chegamos, estavam a todo vapor se organizando pra primeira comunhão da turminha do Pablo. Aqui a primeira comunhão é um super evento. Depois da primeira comunhão na igreja, todos participaram de uma celebração na escola, advinhem! Com chá e biscoitos. E o mais maravilhoso de tudo é que as crianças não católicas participaram da celebração. Os cristãos não católicos rezaram o pai nosso nas suas línguas de origem, os hindus cantaram um mantra e o Pablo e a Karolina recitaram um poema sobre a amizade.

Todas as religiões são respeitadas e ninguém é obrigado a participar das atividades de religião. Durante as aulas de religião, os não católicos fazem desenhos, leituras, ou ficam só quietinhos, esperando a hora passar. Ninguém enfia nada goela abaixo. E a professora sempre tenta mostrar o que todas as religiões tem em comum, que somos um, e que todos devemos nos respeitar. Eu fico até arrepiada com isso. Eu acho que não existe lição melhor do que essa pra passar pras crianças.

Eu não sei se todas as escolas são assim, mas essa é a minha experiência com a escola do Pablo e eu queria muito ter tido essas informações disponíveis quando eu estava tentando decidir se queria vir pra Dublin ou não. No futuro vou fazer um post falando sobre o que eu gosto e o que eu odeio da escola do Felipe, que já foi pro ensino secundário.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Quase um ano vivendo sem carro

Uma das coisas que precisamos nos desfazer na Califórnia foi nosso carro. Usávamos o carro pra ir ao mercado que ficava a sete minutos de caminhada de casa. O Felipe ia de patinete pra escola, mas muitas vezes achava uma desculpa pra eu ir buscá-lo no final do dia. A escola do Pablo era um pouco menos acessível, tinha um morro íngreme pra subir e tinha que atravessar a high way one. Mas eu sempre saia atrasada, na confiança por ter a conveniência de fazer as coisas no meu tempo. E eu ainda deixava o Pablo no serviço que a escola oferecia, onde eu deixava ele na porta da escola e tinha alguém pra abrir a porta e cuidar dele dali pra frente. Dirigir sempre foi uma paixão e eu era oficialmente a motorista da família. Diego só dirigia nos passeios de fim de semana. E fazíamos TUDO de carro. 

Por burrice pura, compramos um carro zero e financiamos em cinco anos assim que chegamos na Califórnia. Na hora de nos desfazermos dele, o pesadelo. Devíamos mais do que ele valia, e ninguém queria sequer pagar o que ele valia. Em resumo, morremos com mais de dois mil dólares pra alguém comprar o nosso carro. Emojis de lágrimas de desespero. Hahaha.

Chegando em Dublin, alugamos um carro por um dia porque tínhamos um milhão de malas e precisávamos voltar ao aeroporto em algumas horas pra buscar a Fofinha. Foi desesperador. O Diego que estava dirigindo e eu era o copiloto. Mas socorro. As estradas são super estreitas (especialmente se compararmos aos estados unidos, que é tudo imenso), o volante do outro lado e a mão pra dirigir é do outro lado também. Fazia anos que ele (e eu também) não dirigia carro com câmbio manual, pior ainda, ter que passar a marcha com a mão esquerda. Sobrevivemos. No dia seguinte ele devolveu o carro e foi pro trabalho. Ufa, que alívio.

Já tínhamos meio que decidido na Califórnia mesmo que tentaríamos viver sem carro em Dublin. Chegando aqui, tivemos certeza. O trânsito não é inteligente como era na Califórnia. É meio caótico, na verdade. E o transporte público resolve nossa vida. Não é barato, mas gastamos menos do que gastaríamos se tivéssemos um carro. Tem um aplicativo de aluguel de carro que resolveria nossa vida caso precisássemos de carro de vez em quando, mas nossas carteiras de motorista da Califórnia venceram e hoje nenhum de nós dois pode dirigir. E também nenhum de nós dois teve paciência e energia pra enfrentar o processo pra fazer a carteira de motorista aqui.

Como vivem então? Ué.. com as próprias pernocas, de trem ou de busão. Faça frio ou mais frio ainda, sol, chuva ou neve (é bem raro nevar, mas nevou ontem e bem na hora de levar o Pablo pra escola). Simplesmente nos adaptamos. E nem foi tão difícil assim. Nas primeiras semanas os meninos já aprenderam qual o nosso ônibus, que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo e que se não chegar no ponto na hora certa, ferrou, vai ter que esperar o próximo ônibus. Aprendemos a não ter pressa e planejar um pouco melhor o dia a dia.

De vez em quando dá vontade de ter carro? Sim, quando tem alguma coisa pra fazer e o mapa mostra que de carro seria quinze minutos e de ônibus uma hora e ainda tem que pegar dois ônibus. Mas dependendo da situação, pegamos um táxi. 

Infelizmente até hoje não peguei um taxista que eu sentisse que tenha sido honesto comigo. O aplicativo mostra um valor, eles no final da corrida adicionam cinco euros, ou fazem caminhos totalmente diferentes do que o aplicativo mostra e a corrida final sai sempre bem mais cara do que a estimativa. Eu juro que tento dar um voto de confiança e acreditar que conhecem o caminho melhor que eu, mas na maioria das vezes a diferença no valor final é muito grande e alguns não tem nem vergonha de colocar cinco euros no final da corrida assim, na cara dura mesmo. E isso é bem frustrante. E não, aqui não tem alternativa como Uber.

O “problema” maior é levar o Pablo pra escola em dia de chuva, e são vinte minutos de caminhada. Mas também já aprendemos que nesses dias vale a pena sair um pouco mais cedo e pegar o ônibus, a mesma linha que o Lipe pega pra ir pra escola, só que uns minutinhos mais tarde. O horário do ônibus não bate muito com os horários da escola, mas a gente se vira. Ou vai cedo e fica esperando no shopping perto da escola, ou acaba chegando uns minutinhos atrasados, se perdermos o ônibus mais cedo. Odeio chegar atrasada, mas as vezes é o único jeito.

Como moramos perto da linha de trem (menos de dez minutos caminhando), o Diego chega rapidinho no trabalho no centro e optamos por pagar uma taxa mensal pela entrega das compras de mercado em casa, já que o mercado fica perto da escola. De vez em quando penso na possibilidade de comprar um daqueles carrinhos de feira pra ver se me adapto, mas por enquanto não senti tanta necessidade.

Tudo tem se ajeitado e estamos encarando o primeiro inverno sem carro numa boa. As vezes acontece de a chuva despencar bem na hora de ir pra escola e claro que bate aquela dúvida se vale mesmo a pena viver sem carro, mas já estamos há quase um ano caminhando e usando transporte público e tá sendo bem tranquilo. Pra falar a verdade, eu morro de vergonha das distâncias que eu tinha preguiça de fazer caminhando.