quarta-feira, 11 de março de 2020

Pedacinhos de felicidade na Irlanda


Vamos falar da parte meio cheia do copo? Eu poderia falar de poder de compra, de segurança, da simpatia dos irlandeses. Mas isso todo mundo fala. Eu quero falar dos pedacinhos de felicidade que EU encontro todos os dias ou de vez em quando.

Não sei se alguém reparou o nome do blog, mas tentei um monte de coisa que sugerisse viver pelo mundo e todos estavam ocupados, então chutei os dois bichos que eu mais tenho fascínio por aqui e funcionou, então fica assim mesmo. Eu nem sei porque gosto tanto desses bichos. Mas eles despertam algo legal em mim.

O Magpie eh um pássaro da família dos corvos e dizem que se você não falar “hello, mister magpie” quando encontra um, você terá azar. Eu sempre amei gatos pretos e acho que isso tem a ver com o meu lado bruxa, da conexão com a natureza, a intuição, enfim. Eu simplesmente AMO o magpie e cumprimento ele só porque gosto dele mesmo. De maneira geral, a Irlanda tem muitos pássaros lindos. Eu amo todos eles. Eles me trazem alegria todos os dias.

Já as raposas me trazem um certo medo, mas é um medo bom, não sei explicar. Eu queria ser amiga delas, mas elas me encaram de um jeito que eu paraliso. No verão elas adoravam passear pelo meu quintal, sempre com os olhos fixos em mim, me da frio na barriga, fico imóvel, mas morro de vontade de me aproximar, apesar de achar que não seria uma boa ideia. Nas noites de lua cheia elas fazem muito barulho e eu googleei e descobri que e porque as noites de lua cheia são mais iluminadas e então elas saem pra caçar. Os barulhos que elas fazem são para comunicação.

O fato de os dias serem curtos faz com que eu tenha muito mais oportunidade de observar as estrelas. Como não tem muita luz por aqui, dá pra ver muito mais estrelas do que eu via no Brasil ou na Califórnia. O problema é que dias que não estão nublados são MUITO mais frios que os dias nublados, então falta coragem pra ficar na rua muito tempo. Mas eu amo mesmo assim. A parte chata é que no verão não fica noite, noite. Então por alguns meses não dá de ver estrela alguma.

Falando em dias curtos e longos, eu não lembro quando tinha sido a última vez que presenciei um
nascer do sol antes de me mudar pra cá. Como no inverno o sol nasce oito e tantas da manhã, eu já estou na rua, a caminho da escola e isso me dá o presente de presenciar os nasceres do sol mais magníficos de toda a minha vida. Agora o sol já está nascendo antes de eu sair de casa, mas sei que no próximo inverno serei presenteada de novo.

Como os dias aqui são super malucos, costuma chover e dar sol várias vezes durante o mesmo dia, é muito comum nos depararmos com arco íris. Eu sempre fui apaixonada por eles e eu SEMPRE fico feliz quando vejo um, então quanto mais vezes eu vejo, mais vezes eu fico feliz.

Mas e essa louca da natureza? Tem coisas que não são relacionados a natureza que trazem felicidade na Irlanda? Teeeemmm… Bebês fofos e encapotados. Gente, eu simplesmente não consigo não achar suuuuuper fofo os bebês de todos os tamanhos no carrinho, cheinho de roupinhas e touquinhas e luvinhas. Numa boa!!! Eu não sei dos bastidores, não sei como é encher um bebê de roupa e a briga que é. Mas ver eles na rua assim, vivendo numa boa e não, eles não estão todos ranhentos como vocês podem estar visualizando, sempre acho fofo e mentalmente faço “aaawwwnnnn”. Acho muito legal como as pessoas simplesmente vivem no frio e não necessariamente ficam presas dentro de casa ou doentes a cada ventinho que pegam. Só pra constar, eu ainda fico doente mais do que deveria, mas já sou bem mais resistente do que era no Brasil.

Outra coisa que eu adoooooro é a simplicidade do chá e biscoito. Eu era acostumada com a cultura brasileira, onde comemos pra caramba e toda a socialização gira em torno da comida, e está subentendido que se tu convidares alguém pra tua casa, isso vai exigir um certo empenho em preparar algo pra receber a pessoa. Coffee break em algum curso? Normalmente recheado de comida. Comida, comida, comida! Por aqui é diferente. Adoro a simplicidade. Podemos ter conversas de horas tomando um chá e comendo um biscoitinho simples, tipo bolacha maria ou de leite. Acho prático e ao mesmo tempo acolhedor.

Pra finalizar, vamos falar de música. Infelizmente onde eu moro só tem um cara tocando ave maria no violino quase todo santo dia. No natal tinham pessoas tocando jingle bells com um trompete e teclado, era muito divertido. Mas de maneira geral, nos lugares mais turísticos sempre tem música, sempre tem alguém tocando alguma coisa e a vibe e super gostosa. De vez em quando rolam até uns brasileiros tocando samba, o que é bem gostoso.

Essas pequenas coisas me trazem alegria todos os dias. E claro que, como todo ser humano, tem dias em que não é tão fácil olhar a parte meio cheia do copo. Tem dias que eu sei que vai ter arco íris, mas não tenho vontade de sair pra rua pra procurar. Tem dias que não tô afim de chá e biscoito e tudo o que eu queria era um pão de queijo com chocoleite. Mas assim é a vida, né? Todo copo tem sua parte cheia e sua parte vazia. E tá tudo bem oscilar entre curtir a parte cheia ou lamentar a parte vazia.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Eu amo a Irlanda, maaaaasss...


Quando a gente pensa em mudar de país, a gente procura se informar o máximo possível, pesquisa, procura blogs, entra em canais no youtube, procura pessoas que moram no local há mais tempo e tudo mais. Mas de maneira geral, as pessoas tendem a compartilhar as partes boas. Poucas pessoas postam as partes ruins. E claro, é um jeito bacana de viver a vida, sempre olhando o copo meio cheio, maaaaaasss. É preciso ter consciência que o copo também está meio vazio. Não, não estou dizendo pra olhar somente pro copo vazio, mas ter consciência que todo copo tem duas metades nos faz tomarmos decisões mais conscientes. Afinal, como eu repito sempre, cada escolha, uma renúncia.

Pois então, seguimos as minhas percepções, frustrações, ilusões, mas também coisas que não são tao ruins como eu imaginava.

Cocô de cachorro. Misericórdia. Aqui não tem cachorro de rua, então não da de botar a culpa nos coitadinhos. A multa pra quem não limpa o cocô do cachorro é de 150 euros. Mas quem fiscaliza? Acho que ninguém, porque em todo lugar tem muito cocô de cachorro e a gente tem que andar sempre cuidando pra não pisar. Acho uma baita falta de respeito dos donos dos cachorros.

Pessoas que atravessam fora da faixa e motoristas que não param pra quem está esperando pra atravessar na faixa. Esse assunto é longo. No Brasil eu já me irritava bastante com isso, mas depois eu me acostumei com a Califórnia, onde de maneira geral, as pessoas são bem respeitosas com pedestres que pretendem atravessar na faixa. Inclusive, se tu estivesse em uma esquina, seria melhor não “parecer” que queria atravessar a rua, se não, os carros iriam parar. Na verdade, se você for visto atravessando fora da faixa pela polícia, você pode ser multado.

Mas e na Irlanda, minha gente? Bom, na Irlanda eu diria que em torno de 10% das pessoas atravessam na faixa. Normalmente eu sou uma das únicas “idiotas” que fica esperando o sinal abrir pra poder atravessar, ou que dá a volta ao mundo pra poder atravessar na faixa. Eu entendo, em partes. As sinaleiras demoram MUITO pra abrir. Enche o saco, eu confesso. Mas ainda assim, eu prefiro fazer certo e esperar abrir, com excessão da faixa perto de casa que está com defeito e simplesmente não abre nunca se não tiver passando carro, mas me sinto uma criminosa cada vez que atravesso com o sinal de pedestres vermelho.

Os motoristas que não param pra quem esta esperando pra atravessar e infelizmente não posso reclamar muito, já que a lei de trânsito irlandesa só exige que o motorista pare se o pedestre já tiver iniciado a travessia. Então é raríssimo alguém parar pra gente atravessar quando estamos esperando, ok, estão perdoados. Mas ainda fico chateada.

Lixo no chão. Bah, outra coisa que eu acho super triste. Apesar de sempre ter o carrinho varrendo o chão e limpando as ruas, ainda assim, tem muito lixo pelas ruas e também no trem e ônibus. Infelizmente, é completamente comum ver as pessoas abrindo um pacote de qualquer coisa e “deixando o papel cair”, assim, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Um dia eu estava numa festinha com o Pablo e vi as crianças abrindo pirulitos e jogando o papel no mar, e achando o máximo ver o papelzinho voar pro mar. Falta conscientização nas escolas, falta conscientização de maneira geral. Me dói a alma. Em determinadas épocas da vida eu me obrigo a juntar três lixos que encontro no chão por dia. Em determinadas épocas eu tento fingir que não vejo. Mas eu vejo, e conversei nas duas escolas pra fazer campanha de conscientização, porque as crianças podem mudar o mundo. Tomara que tenham me escutado.

Ah, eu quase ia esquecendo de comentar. A maioria das pessoas fuma. Imaginem o choque que eu levei quando fui matricular o Felipe no ensino secundário e dei de cara com um monte de criança (de uns 14, 15 anos) fumando. Nem no Brasil e nem na Califórnia as pessoas fumam desse jeito e infelizmente, ate os meninos já se acostumaram com o cheiro, que há um ano atrás eles não conseguiam suportar. Mas, paciência, né? Espero realmente mesmo que os meus filhos consigam se manter longe do cigarro.

A chuva e o frio. Pois geeeente… isso era o assunto mais falado quando eu procurava sobre pontos negativos da Irlanda. E juro, não eh tãaaaao horrível assim. Claro que morro de saudades de sentir calor, usar um vestido e exibir minhas tattoos lindas de viver, mas a gente se acostuma. A chuva não eh tao horrível como dizem. É raro chover forte. É uma garoazinha, normalmente, que nem vale a pena abrir o guarda chuva. Melhor é ter uma jaqueta a prova d'água, tênis a prova d'água e ser feliz. 

O corpo se acostuma e a gente comemora quando da mais de dez graus, porque esta “quente”. A gente se habitua a vestir cachecol, touca e um monte de blusas e tirar tudo a cada lugar que entra, pois tem aquecimento em todo lugar. Simplesmente faz parte da nossa vida. Eu não uso mais bolsa, por exemplo. Uso mochila (a prova d'água, claro) com um kit sobrevivência que inclui água, cachecol, touca, luva, álcool gel e todas as outras coisas que a gente carrega na bolsa.

A Irlanda eh ruim? Mas eh óbvio que não. Se fosse ruim, eu não estaria aqui. E é claro que vai rolar post sobre o que eu gosto daqui também. E talvez as coisas que me incomodam aqui, não vão te incomodar. Do mesmo jeito que voce pode talvez nunca se adaptar ao frio. Os países são diferentes, as culturas são diferentes e principalmente, as pessoas são diferentes. Essa eh a graça da vida, não achas?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Minhas impressões sobre a educação na Irlanda

O Lipe tem quase treze anos e ele já estudou em nove escolas ao longo da vida. O Pablo com nove anos de idade estudou em sete escolas.  Eles foram pra escola aos cinco e seis meses de idade respectivamente e nos mudamos bastante, mas também nós trocamos eles de escola algumas vezes buscando alguma opção melhor. Até que trocamos de país buscando uma educação melhor. 

Foi maravilhoso, foi incrível, foi mágico, mas não foi perfeito. Eles estudavam em escolas nota dez na classificação nacional, mas eram escolas sem diversidade alguma, com muita competitividade e muitos elogios vazios. O ensino na California não era tradicional, eles colocavam bastante a mão na massa, eram ensinados a questionar (em determinados assuntos, claro) e prometiam lealdade a bandeira americana todas as manhãs. Oi??? É, isso mesmo, mãozinha no peito todas as manhãs pra prometer lealdade a bandeira americana. Eu tentava abstrair e pensar só nas coisas bacanas.

Como já falei antes, nosso medo de mudar pra Irlanda era que de alguma forma impusessem o catolicismo na escola. Depois de dar um jeito de encontrar um irlandês pra me contar como eram as escolas e me falarem um pouco eu pensei, que mal há em rezar um "Pai Nosso" se hoje eles estão prometendo lealdade a um país que nem é deles?

Diferente de quando fomos pra California, dessa vez tinha uma empresa ajudando com todos os detalhes da nossa mudança. E uma coisa maravilhosa que eles fizeram foi encontrar uma escola que aceitasse os dois juntos e no último termo (as aulas são divididas em termos de uns três meses aproximadamente). Aqui na Irlanda é muito comum escolas só de meninos e só de meninas. Nós fizemos questão de que fosse uma escola mista.

As escolas mistas não são tão fortes academicamente. Mas depois de tantas escolas pela vida, entendemos que pra nós é importante que eles saibam lidar com as diferenças em todos os aspectos e aprendam coisas pra vida, como trabalhar em equipe, socializar, chegar no horário, organização, gostar de ler, viver em sociedade.

Pra nossa alegria, a escola tem gente de inúmeros países, inclusive, somos em quatro famílias brasileiras. Eles tem até um mapa simbolizando todos os países representados. E tem outros países sem o alfinete, porque de vez em quando alguém fica triste que seu país não tá representado e troca o negócio de lugar. Na turminha do Pablo são 23 alunos e somente 3 são irlandeses. Tem gente da Italia, Espanha, Polonia, Eslovaquia, Moldova, India, Filipinas e vários outros lugares que eu não gravei.

A escola é super pequenininha e eles tem uma funcionária que o trabalho dela é estreitar as relações entre a escola e os pais. Qualquer hora que eu quiser tomar um café na escola, ela vai estar lá, pra conversar, checar se tem leite e correr pra resolver alguma outra coisa. Ela também ajuda a associação de pais nos eventos pra arrecadar dinheiro e promove cursos gratuitos na cozinha da escola, eu já fiz curso de culinária e de educação de filhos, mas tem também de artesanato, decoração de bolos, já teve até ioga. Eu acho o máximo! Não tem voluntariado na sala de aula como tinha na Califórnia, mas tem esses eventos pra trazer os pais pra escola. 

Eu também acho fofo que em qualquer evento que envolva os pais, sempre tem café e biscoito depois, e nada de produto descartável. É xícara e pires, que a gente (os voluntários) lava depois e guarda. Eu acho tão gostoso, tão jeitinho de casa de vó, tão aconchegante.

Pra voluntariar em qualquer evento que envolva as crianças, tipo, na próxima semana terá o dia do cachorro quente, é necessário ser "garda vetted", que significa que tu mandou todos os teus dados pra polícia da Irlanda e eles disseram que ok, pode trabalhar com crianças que você é uma pessoa do bem.

O ensino é bem tradicional, professora explica, alunos sentadinhos escutando e depois fazem alguma atividade. Eles usam uniforme social (o Pablo usa até gravata) e nas regras da escola dizem que tem que estar de cabelo sempre bem cortado e penteado (meus filhos burlam essa regra diariamente, porque vivem descabelados).

E a religião, Carol? Como que funciona? Acho que essa foi a melhor surpresa. Aqui a primeira comunhão é dentro da escola. Faz parte do currículo. Quando chegamos, estavam a todo vapor se organizando pra primeira comunhão da turminha do Pablo. Aqui a primeira comunhão é um super evento. Depois da primeira comunhão na igreja, todos participaram de uma celebração na escola, advinhem! Com chá e biscoitos. E o mais maravilhoso de tudo é que as crianças não católicas participaram da celebração. Os cristãos não católicos rezaram o pai nosso nas suas línguas de origem, os hindus cantaram um mantra e o Pablo e a Karolina recitaram um poema sobre a amizade.

Todas as religiões são respeitadas e ninguém é obrigado a participar das atividades de religião. Durante as aulas de religião, os não católicos fazem desenhos, leituras, ou ficam só quietinhos, esperando a hora passar. Ninguém enfia nada goela abaixo. E a professora sempre tenta mostrar o que todas as religiões tem em comum, que somos um, e que todos devemos nos respeitar. Eu fico até arrepiada com isso. Eu acho que não existe lição melhor do que essa pra passar pras crianças.

Eu não sei se todas as escolas são assim, mas essa é a minha experiência com a escola do Pablo e eu queria muito ter tido essas informações disponíveis quando eu estava tentando decidir se queria vir pra Dublin ou não. No futuro vou fazer um post falando sobre o que eu gosto e o que eu odeio da escola do Felipe, que já foi pro ensino secundário.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Medos bobos e coragens absurdas

Desde que resolvi voltar a escrever, a minha cabeça borbulha com ideias sobre o que escrever. Uma das coisas que eu não posso deixar de escrever é sobre a minha saúde emocional. Não que eu ache que alguém esteja interessado na minha saúde emocional especificamente, mas porque eu percebo que quando eu conto pras pessoas sobre as minhas experiências, o mundo parece que se divide em dois grupos, o grupo das pessoas que acham que crise de ansiedade é "falta de um quintal pra carpir" e o grupo de pessoas que dizem "obrigado(a) por compartilhar, agora eu sei que não estou só". 

Entre indas e vindas, e tendo passado por 4 psicólogas maravilhosas com linhas bem diferentes uma da outra, já faz doze anos que eu faço psicoterapia. Eu acho que todo mundo deveria fazer terapia e se conhecer melhor, mas entendo que muita gente prefira não tirar essa armadura invisível que simbolicamente deixa nosso coração protegido de todas as dores. Eu confesso, tirar essa armadura e cavocar as mágoas adormecidas, as experiências que nosso subconsciente nos faz esquecer justamente pra não sofrermos, as nossas raivas, os nossos medos, enfim, dói MUITO. 

É bem comum eu terminar a sessão com ódio mortal da psicóloga ou então simplesmente parar a terapia por achar que não tem mais nada pra tratar. Eu mesma já precisei de um tempo da terapia porque o negócio tava complicando e eu inconscientemente criava um mecanismo de defesa que me fazia sentir que estava tudo bem. Ainda bem que uma das minhas psicólogas observou o padrão e pude perceber que sempre que eu tava querendo fugir da terapia era porque eu precisava trabalhar algo mais do que nunca.

Em 2016 foi um desses momentos que eu fugi da terapia. O ioga tava me fazendo muito bem, eu fazia ioga massagem ayurveda, o que também era uma forma de terapia, mas não era falado, era sentido, era diferente. Final de 2016 pedi demissão e mudamos pra Califórnia. Eu só chorava, dia e noite, incluindo madrugadas. Com o tempo, passei a dormir. Levava os meninos na escola, voltava pra casa e dormia, se tivesse acordada, tava chorando. Buscava os meninos na escola, voltava pra cama e dormia (Essa foto é dessa época, tentando um sorriso pra poder postar a vida maravilhosa no Instagram, mesmo de óculos de sol, da pra ver beeeem que tá forçado).

A vida estava tão linda acontecendo no Brasil, não parava de chegar mensagem no meu whatsapp de pessoas procurando doula ou consultora em aleitamento (coisa que nunca aconteceu enquanto eu estava no Brasil), mas eu estava lá, sozinha, num país completamente diferente, tendo que segurar a barra da adaptação dos meninos, tendo que aprender tudo sobre tudo, num inverno frio e chuvoso enquanto todo mundo postava foto de biquini e tomando caipirinha na beira da praia (e sim, na California costuma ter problemas com seca, mas a seca acabou quando chegamos, pois choveu de forma atípica por mais de um mês).

Comecei a perceber que barulhos altos e repentinos me causavam aflição, um aperto no peito instantâneo. Notei que cada vez que eu ouvia o barulho de um avião, eu achava que iam soltar uma bomba na minha cabeça. E isso acontecia dezenas de vezes num dia, já que morávamos relativamente perto do aeroporto. Cada barulho de ambulância, um desespero, uma sensação horrível, um medo absurdo, coração disparado. Foi quando eu mandei mensagem pra minha psicóloga dizendo "eu preciso de ajuda, não estou bem".

Comecei então a fazer terapia com a minha psicóloga do Brasil por video no whatsapp. Fui organizando dentro de mim todos os sentimentos, o desmontar a casinha de lego, a perda de referência, e vários outras coisas que não dá pra compartilhar aqui. Os sustos foram diminuindo e achei que eu já podia viver sem terapia de novo.

Engano meu. Em pouco tempo, cada mínima dor que eu sentia eu achava que era câncer e que eu ia morrer semana que vem. Mesmo aperto no peito, coração disparado, desespero. Algumas vezes eu acho que não sei mais respirar, as vezes acho que não sei engolir saliva e dali desencadeiam as nóias.

É óbvio que eu sei que todos esses pensamentos são irreais. Eu não sei de onde eles vem e eu juro que tento controlá-los. Na maioria das vezes eu consigo, mas muitas vezes não. Nas crises mais fortes eu sinto o rosto adormecer e fico igual a um zumbi, com tempo de resposta super longo, não consigo raciocinar e muito menos tomar qualquer decisão simples. Depois que passa, vem uma dor no corpo, daquelas que a gente sente quando pega uma gripe.

Eu costumo acordar apavorada no meio da noite, assustadíssima, com pensamentos completamente sem sentido, tipo quando meu pai estava na UTI e eu acordava de madrugada em desespero porque tinha dado o remédio errado pra ele, sendo que eu nunca encostei em medicamento algum.

Cada ambulância que passa, meu coração dispara. Se for no horário que o Felipe está indo ou voltando da escola mesmo, eu não consigo respirar até ele me responder que está bem. Se ele leva cinco minutos a mais do que o normal pra chegar em casa, eu entro em parafusos. E ele é um adolescente, isso vai acontecer muito. Eu explico pra ele que eu fico muito nervosa quando ele não responde e que desencadeia as minhas crises, ele entende e colabora muito. Mas eu não quero ficar enchendo o saco dele. Eu tento evitar, mas as vezes prefiro ligar, e ser uma mãe chata, do que deixar uma nova crise chegar.

Esse post não é um pedido de ajuda. Não adianta me dizer pra ir pegar um ar puro, ou fazer meditação, ou que eu tenho que mudar meu mindset. Eu sei, racionalmente, tudinho o que eu tenho que fazer. E faço. A questão é que quando a crise vem, o racional desliga. Eu tenho o privilégio de ter pessoas com quem eu posso contar quando eu sinto que a coisa está complicando. E essas mesmas pessoas contam comigo também quando precisam pelas mesmas razões. É uma espécie de irmandade das pessoas ansiosas. Não adianta explicar pra quem nunca teve uma crise, ela muito provavelmente vai vir com receitas pra sua cura, o que é extremamente irritante.

Mas Carol, tu não tens vergonha de mostrar tuas fraquezas? É óbvio que tenho!!! Esse post é pra ajudar quem também passa por isso. Pra que saibam que não estão sós e que podem contar comigo pra ouvir os pensamentos mais absurdos na hora da crise, porque sim, saber que não estamos sozinhos faz toda a diferença. E só pra deixar bem claro, a ansiedade não me define, ela é só um pedacinho de mim.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Quase um ano vivendo sem carro

Uma das coisas que precisamos nos desfazer na Califórnia foi nosso carro. Usávamos o carro pra ir ao mercado que ficava a sete minutos de caminhada de casa. O Felipe ia de patinete pra escola, mas muitas vezes achava uma desculpa pra eu ir buscá-lo no final do dia. A escola do Pablo era um pouco menos acessível, tinha um morro íngreme pra subir e tinha que atravessar a high way one. Mas eu sempre saia atrasada, na confiança por ter a conveniência de fazer as coisas no meu tempo. E eu ainda deixava o Pablo no serviço que a escola oferecia, onde eu deixava ele na porta da escola e tinha alguém pra abrir a porta e cuidar dele dali pra frente. Dirigir sempre foi uma paixão e eu era oficialmente a motorista da família. Diego só dirigia nos passeios de fim de semana. E fazíamos TUDO de carro. 

Por burrice pura, compramos um carro zero e financiamos em cinco anos assim que chegamos na Califórnia. Na hora de nos desfazermos dele, o pesadelo. Devíamos mais do que ele valia, e ninguém queria sequer pagar o que ele valia. Em resumo, morremos com mais de dois mil dólares pra alguém comprar o nosso carro. Emojis de lágrimas de desespero. Hahaha.

Chegando em Dublin, alugamos um carro por um dia porque tínhamos um milhão de malas e precisávamos voltar ao aeroporto em algumas horas pra buscar a Fofinha. Foi desesperador. O Diego que estava dirigindo e eu era o copiloto. Mas socorro. As estradas são super estreitas (especialmente se compararmos aos estados unidos, que é tudo imenso), o volante do outro lado e a mão pra dirigir é do outro lado também. Fazia anos que ele (e eu também) não dirigia carro com câmbio manual, pior ainda, ter que passar a marcha com a mão esquerda. Sobrevivemos. No dia seguinte ele devolveu o carro e foi pro trabalho. Ufa, que alívio.

Já tínhamos meio que decidido na Califórnia mesmo que tentaríamos viver sem carro em Dublin. Chegando aqui, tivemos certeza. O trânsito não é inteligente como era na Califórnia. É meio caótico, na verdade. E o transporte público resolve nossa vida. Não é barato, mas gastamos menos do que gastaríamos se tivéssemos um carro. Tem um aplicativo de aluguel de carro que resolveria nossa vida caso precisássemos de carro de vez em quando, mas nossas carteiras de motorista da Califórnia venceram e hoje nenhum de nós dois pode dirigir. E também nenhum de nós dois teve paciência e energia pra enfrentar o processo pra fazer a carteira de motorista aqui.

Como vivem então? Ué.. com as próprias pernocas, de trem ou de busão. Faça frio ou mais frio ainda, sol, chuva ou neve (é bem raro nevar, mas nevou ontem e bem na hora de levar o Pablo pra escola). Simplesmente nos adaptamos. E nem foi tão difícil assim. Nas primeiras semanas os meninos já aprenderam qual o nosso ônibus, que o mundo não gira ao redor do nosso umbigo e que se não chegar no ponto na hora certa, ferrou, vai ter que esperar o próximo ônibus. Aprendemos a não ter pressa e planejar um pouco melhor o dia a dia.

De vez em quando dá vontade de ter carro? Sim, quando tem alguma coisa pra fazer e o mapa mostra que de carro seria quinze minutos e de ônibus uma hora e ainda tem que pegar dois ônibus. Mas dependendo da situação, pegamos um táxi. 

Infelizmente até hoje não peguei um taxista que eu sentisse que tenha sido honesto comigo. O aplicativo mostra um valor, eles no final da corrida adicionam cinco euros, ou fazem caminhos totalmente diferentes do que o aplicativo mostra e a corrida final sai sempre bem mais cara do que a estimativa. Eu juro que tento dar um voto de confiança e acreditar que conhecem o caminho melhor que eu, mas na maioria das vezes a diferença no valor final é muito grande e alguns não tem nem vergonha de colocar cinco euros no final da corrida assim, na cara dura mesmo. E isso é bem frustrante. E não, aqui não tem alternativa como Uber.

O “problema” maior é levar o Pablo pra escola em dia de chuva, e são vinte minutos de caminhada. Mas também já aprendemos que nesses dias vale a pena sair um pouco mais cedo e pegar o ônibus, a mesma linha que o Lipe pega pra ir pra escola, só que uns minutinhos mais tarde. O horário do ônibus não bate muito com os horários da escola, mas a gente se vira. Ou vai cedo e fica esperando no shopping perto da escola, ou acaba chegando uns minutinhos atrasados, se perdermos o ônibus mais cedo. Odeio chegar atrasada, mas as vezes é o único jeito.

Como moramos perto da linha de trem (menos de dez minutos caminhando), o Diego chega rapidinho no trabalho no centro e optamos por pagar uma taxa mensal pela entrega das compras de mercado em casa, já que o mercado fica perto da escola. De vez em quando penso na possibilidade de comprar um daqueles carrinhos de feira pra ver se me adapto, mas por enquanto não senti tanta necessidade.

Tudo tem se ajeitado e estamos encarando o primeiro inverno sem carro numa boa. As vezes acontece de a chuva despencar bem na hora de ir pra escola e claro que bate aquela dúvida se vale mesmo a pena viver sem carro, mas já estamos há quase um ano caminhando e usando transporte público e tá sendo bem tranquilo. Pra falar a verdade, eu morro de vergonha das distâncias que eu tinha preguiça de fazer caminhando.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Voltando a escrever, contando sobre as experiências vividas...

Faz dois anos que escrevi pela última vez no blog. Nesses dois anos TANTA água passou por baixo da ponte. Tanta vida foi vivida, que eu nem sei por onde começar. Tenho tanta coisa pra contar, tanta coisa que eu aprendi, tanta coisa que senti. Se fosse resumir em uma palavra, eu diria que foi INTENSO.

Eu reli alguns dos posts e não sei se consigo escrever com a mesma leveza. Talvez seja a falta de vitamina D ou talvez tenham sido as experiências vividas. Um tempo depois de todo o deslumbramento com a vida na California, algumas coisas começaram a acontecer pra nos mostrar que talvez lá não fosse o nosso lugar. Eu não tinha permissão de trabalho, o visto de turista pra minha mãe e meus cunhados foi negado, assim, sem nenhuma explicação, eles julgaram que minha família era uma ameaça ao país e não permitiram que nos visitassem. Nosso tipo de visto estava sempre nas notícias, como sendo um vilão, que tirava emprego dos americanos e o governo estava fazendo o possível pra dificultar a renovação.

Junto disso, o Diego começou a sentir que as coisas estavam ficando estranhas na empresa e parecia que talvez pedir transferência pra Dublin fosse uma boa opção. Comecei a pesquisar sobre Dublin, mas não conversávamos muito claramente sobre. Eu sabia que em Dublin eu teria permissão de trabalho e que de maneira geral são mais abertos a imigrantes. Eu me preocupava um pouco com o clima, afinal, eu sabia que seria cinza, e eu sempre fiquei jururu nos dias cinzas, antes mesmo de abrir a cortina pra ver que estava cinza. Mas como eu estava morando na California e praticamente nunca chovia, quando chovia, eu ficava feliz, então achei que o clima não seria um problema.

Mas uma coisa me incomodava bastante. Eram as escolas católicas. Nós não temos religião e tudo que eu pesquisava sobre religião nas escolas era assustador. O que eu encontrava na internet eram pessoas furiosas porque seus filhos tinham que "engolir" o catolicismo nas escolas e que não tinham suas crenças respeitadas. E por isso, descartamos a ideia de mudar pra Dublin.

Um dia acordei meio banza e como sempre, tava olhando o instagram. Tinha um post dizendo "o que você faria se não tivesse medo?". Eu ainda estava em modo zumbi, o racional ainda desligado e dentro de mim, talvez até tenha falado alto e não percebi, mas respondi "Iria pra Dublin".

Demorei uns dias pra conversar com o Diego a respeito. Mas lembro muito bem de estarmos deitados conversando, e eu perguntava o que ele queria fazer e ele não queria falar antes de eu falar. E ficamos nessa, fala tu primeiro, não, fala tu.. até que falei, "eu quero ir pra Dublin". E ele disse, "Eu também, mas tava com medo de te falar, porque tenho medo de tu ficar mal como ficou quando fomos pra California."

Quando fui pra California eu fiquei MUITO mal. Eu acho que devo ter entrado em depressão, mas nunca fui diagnosticada, porque nunca fui ao médico falar a respeito, me resolvi com psicoterapia. Resolvi mais ou menos, porque as crises de ansiedade não me largam desde então.

Enfim, o Diego estava com medo de uma nova mudança provocar tudo aquilo de novo em mim. Expliquei que o contexto era completamente diferente e decidimos que ele iria pedir transferência. 

Entre a gente decidir, ele pedir, a empresa responder que sim, a empresa entrar com o processo, o visto ser aprovado e nós mudarmos pra Dublin foram 8 meses. Oito meses de muita pesquisa, oito meses que aproveitamos cada milímetro que foi possível da California. Muito pôr do sol, muitos passeios, muito voluntariado, muitos playdates, muitos castelos na areia...

E então chegou a hora de desmontar a casinha de lego de novo.. decidir o que iria pra Dublin e o que ficaria na California. Mas dessa vez foi TÃO diferente. Foi leve, foi fácil.. Tudo que eu conquistei na California, tudo que aprendi, era algo que não dava de colocar na mala. Estava comigo, e ninguém poderia tirar. Dia 25 de março de 2019 encerrou nosso ciclo California Dreams.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Mas e os meninos? Estão bem no inglês?

Mas e os meninos? Estão se virando bem no inglês? Arrisco dizer que essa é a pergunta que mais me fazem desde que nos mudamos pra cá. Acho que já deu pra perceber que eu gosto sempre de seguir uma certa ordem cronológica nos meus pensamentos, né? Então, vamos lá.


Com 13 anos eu comecei a estudar inglês no CCAA. "Good Morning, Magic Eyes, How are you? Fine, Thanks, and you?". No CCAA se aprende inglês como os bebês aprendem a falar. A gente escuta, repete sem entender mesmo, depois começa a usar aquelas palavras com algum contexto e assim vai evoluindo. Leitura e escrita vem por último. No CCAA eu costumava ser a melhor aluna, sempre muito elogiada pela pronuncia e por conseguir falar rápido e me fazer entender.

Depois de quatro anos de inglês, comecei a dar aulas. Uma das professoras teve bebê nessa época e vi ela falando inglês com ele e ali decidi que quando eu tivesse filhos, falaria inglês com eles desde a barriga. Preciso dizer que não foi bem assim que aconteceu?

Por imaturidade, parei de dar aulas de inglês. Me afastei quase completamente do inglês (digo quase porque eu nunca deixei de assistir filme legendado, por exemplo), mas sempre acreditei que ele estava ali, guardadinho, e que seria como andar de bicicleta: a gente nunca esquece. 10 anos depois de eu parar o inglês, o Diego começou a trabalhar com a empresa que ele trabalha hoje. E ele, que foi meu aluno um dia, começou a ir ficando cada vez melhor no inglês, enquanto eu permanecia na mesma.

Os meninos tinham o inglês da escola e só. Nunca consegui (e quando conseguiria, não tive coragem) pagar aulas de inglês pra eles. Uns meses antes de dar certo o visto, eu disse pro Lipe fazer duolingo, e ele fazia durante a tarde, um pouco, até encher o saco. O Pablo, nada! Por ele ser mais novo, sempre me disseram que ele aprenderia mais fácil.

Nos mudamos e levou um mês e meio pras aulas começarem. O que eles ouviam de inglês nesse tempo era em vídeos e os motoristas de uber que a gente cruzava, mas não tinham oportunidade de falar. As aulas começaram e na primeira semana o Lipe já tava se comunicando bem. Ele é mais peitudo, mete a cara e vai. Em poucos meses ele já tava me corrigindo e me ajudando com coisas que eu não entendo. A única coisa que me incomoda é ver o Lipe falando I "fink" quando tá querendo dizer "I Think". Fico louca, já expliquei mil vezes, mas não tem jeito, alguma alma ensinou pra ele assim no Brasil e não consigo fazer ele mudar.

O Pablo já teve um processo mais lento. No começo tava completamente perdido. Com o tempo, percebi que ele já entendia inglês, mas se eu perguntasse algo em inglês pra ele, ele respondia em português. O tempo foi passando e ele começou a arriscar a falar. Começaram as férias de verão e ele passou a ter pouca oportunidade de praticar o inglês. Em setembro as aulas começaram na escola nova e em um ou dois meses ele passou a falar mais inglês que português. 

Eu tenho bastante dificuldade pra me comunicar. Tenho impressão que as palavras estão trancadas em algum lugar do cérebro, elas simplesmente não saem. Na verdade, elas estão ali, na ponta da língua, mas não consigo transformar de pensamento pra fala. Então dou voltas, tento explicar com gestos, explico mais ou menos e as pessoas que me conhecem, acabam completando a frase ou falando a expressão correta e menos formal pra me ajudar. Na maioria das vezes eu sabia aquela palavra ou expressão, só não conseguia acessar. Não consigo entender.

Eu tenho ainda pouca oportunidade de conversar. Quando falo, demoro bastante e é difícil fazer uma conversa fluir como eu gostaria, apesar de as pessoas afirmarem que me entendem. Consigo conversar com uma pessoa por algumas horas, se estiver só eu e ela. Mas se tiver num grupo de pessoas falando não me sinto confiante pra entrar na conversa, fico mais observando, já que eu demoro bastante pra conseguir falar o que quero e nem todo mundo sabe do meu processo de aprendizagem.

Apesar de algumas pessoas aqui falarem que meu inglês é bom e que conseguem me entender, eu não me sinto segura falando inglês. Mas algo que acontece, que é interessante, é que eu não noto quando estou falando inglês ou português. Se estou falando inglês com alguém e de repente chega alguém falando português, eu começo a falar português sem perceber, esqueço que as outras pessoas não entendem português (apesar de muitas pessoas aqui falarem espanhol e ficarem curiosas por ser tão parecido). Parece que tem uma chave, que de um lado é inglês e outro português, e essa chave é automática, tu não percebe que ela mudou.

Normalmente os meninos saem da escola falando Inglês e continuam falando inglês sem perceber, até que alguém puxe algo em português, então eles mudam a chave pro português também sem notar. Mas o que hoje, um ano e dois meses depois da mudança, eu consigo perceber é que o inglês já está muito mais presente na cabeça deles do que o Português e mesmo quando eles falam português, eles acabam traduzindo do inglês pro português, como quando eles pedem "posso ter um bolinho de banana?" ou quando o Lipe fala "salvar a bateria" em vez de economizar. Em várias situações eles conseguem se expressar melhor em Inglês do que em Português.

Os meninos estão bem no inglês? Sim, estão melhores que eu, com um vocabulário super melhor que o meu e eles me ensinam coisas novas todos os dias. Tem bastante diferença entre o inglês que ensinam nos cursinhos e o inglês na prática. Também é legal falar, que por melhor que seja a nossa pronúncia, sempre vai dar pra saber de longe que não somos nativos, basta observar qualquer estrangeiro tentando falar português. O Pablo tem a pronúncia mais parecida com os americanos do que o Lipe, por causa da idade. Falamos inglês e português dentro de casa, sem nóias... e assim vivemos, as vezes pensando em português, as vezes sonhando em inglês, sem pressa, sem cobranças, só vivendo. :)